VIA SACRA DO ARISTEO PIOVESAN ESCULTOR E ARTISTA CIANORTENSE

Por Izaura Varella - Às vezes Historiadora.


O Aristeo tem um talento muito próprio para esculturas e seu ofício é recheado de diferentes interpretações. É um escultor cianortense, humilde, talentoso e consegue passar para as mãos o resultado de sua rica imaginação. Acompanho suas obras, onde a força de seu braço, vai moldando aqueles sentimentos mais profundos que só afloram na alma de artista. Suas esculturas no ferro estão belíssimas; fui acompanhando cada passo da sua ousada VIA SACRA até chegar ao acabamento final como se encontra hoje. No começo só encontrei uns ferros retorcidos e o artista falava de seus sentimentos e de sua arte, porém, eu não conseguia visualizar tanta poesia. Quando, finalmente pude ver uma estação da Via Sacra, pronta, acabada, consegui sentir tudo aquilo que passava na sua alma. Estas esculturas estão colocadas no Bosque João XXIII, em torno do Santuário Eucarístico Diocesano Nossa Senhora de Fátima e tem um fim muito especial também: atrair turistas de fora para o projeto em andamento em nossa cidade do turismo religioso. Nada mais pontual.

Nesta época, perto de 2.012, com colaboração da Prefeitura Municipal de Cianorte e com recursos do próprio Santuário, as catorze estações foram expostas do lado de fora na praça. A última, que se refere à Ressurreição estaria dentro da Capela onde se cultua o Santíssimo Sacramento.; decidiram colocá-la do lado de fora da Igreja.

Na 9ª Estação, “Quando Jesus cai pela terceira vez” emociona muito. Aristeo conseguiu relacionar a queda de Jesus com o atendimento à saúde da população no Brasil. A aflição da fila, da falta de remédios, do atendimento de profissionais que às vezes agem como se estivessem fazendo um favor ao povo, não como se esivessem realizando um direito do povo é de emocionar. O rosto de ferro de Jesus consegue transmitir a dor da espera, a miséria do ser sendo tratado como indigente. E quando criou sua obra sequer se falava de Covid!

Na 8ª Estação, “Jesus consola as mulheres de Jerusalém” Aristeo coloca ao pé da cruz uma pessoa enterrada no vício do crack e as mulheres sofridas olhando seus filhos limitados diante da dor que o vício causa a todos. É por isto mesmo que Jesus olha para as mulheres em seu calvário e diz: “Mulheres de Jerusalém, não chorais por mim, mas por vós mesmas e por vossos filhos”. O artista vai tirando do metal batido e frio a estampa do sofrimento, a certeza de que toda consolação vem de Deus e levando quem olha com atenção esta cena, a uma grande reflexão. “O que estamos fazendo aqui, se não for somente por amor aos nossos semelhantes?”.

Outra Estação que vale a pena olhar, apreciar e refletir é a 2ª Estação: “Jesus é condenado à morte.” E condenado, a cruz se apresenta de forma arredondada em todas as estações. Aristeo quis lembrar as formas arquitetônicas do Santuário e chama a atenção sobre este arredondamento da cruz, porque quantas vezes carregamos a nossa própria cruz, encurvados, e a cruz vai se adaptando ao nosso próprio corpo, acompanhando o sofrimento.

Enfim, Aristeo passeia solto em sua imaginação em todas as estações que gravam o Calvário de Cristo até à cruz e à Ressurreição de uma forma tranquila, interpretativa e cheia de emoção. Não tenho dúvida que quando estas esculturas que estão expostas à visitação em plena praça, é um motivo de orgulho para Cianorte.

E onde Aristeo se inspirou? Escultor da esquerda puro e tradicional tem o costume de olhar tudo o que acontece à sua volta pelo lado do povo e da maioria que depende do poder.Só que sem nenhuma hipocrisia! É engajado em movimentos sociais tendo o homem como seu fim último, seu bem estar e suas responsabilidades diante da sociedade. Por isto mesmo conseguiu passar para suas quinze estações da Via Sacra uma reflexão generalista sobre como o ser humano vive hoje, num mundo tão paradoxal e contraditório e o que o ser humano representa para o outro e para Deus.

Orgulhosa estou de ter em minha cidade uma pessoa tão talentosa e que consegue manifestar sua arte de forma espontânea e reflexiva.