Vamos falar de ética?

Por Elias Ariel de Souza - Secretário Municipal de Defesa Social.


Elias Ariel de Souza é Secretário Municipal de Defesa Social. Tenente Coronel da reserva da PMPR. Bacharel em Segurança Pública, especialista em gestão estratégica de segurança pública, especialista em gestão integrada de segurança pública. Cientista Político, Mestre e Doutorando em Ciência Política, pesquisador na área de militares e política e professor universitário nas cadeiras de ética, sociologia e política.


Olá amigos, quero primeiramente expressar minha satisfação e prazer em poder ocupar este espaço tão seleto para falar com nossa cidade ao lado de tanta gente boa e inteligente. Aqui proporei algumas reflexões para que possamos juntos experimentar a arte do debate, da divergência e da diferença, para de fato aprendermos e apreendermos juntos. Vamos lá.

Vamos falar de ética?


Ética. Talvez esta palavra nunca tenha sido tão usada e invocada como nos tempos atuais e especialmente nesta parte do hemisfério sul. Nenhum de nós, ou pelo menos os mais lúcidos, ou mesmo em sede de senso comum, poderíamos negar que vivemos uma verdadeira encruzilhada e talvez uma cruzada ética em nosso país. Mas, este termo tão invocado e celebrado sempre compreendeu verdadeiramente o que pretendemos que ele represente hoje? Necessário, acredito eu, uma viajem cronológica e etimológica sem pretensões maiores que uma boa reflexão.


O termo “ética” remonta em gênese à Grécia Antiga, lar dos filósofos e da Filosofia. Na sua origem não significava exatamente o que hoje interpretamos, todavia, lá ou cá sempre resumiu uma forma de enxergar a “vida que vale a pena ser vivida, “a vida boa”. O caminho da ética dos gregos antigos aos dias de hoje é longo, faremos este percurso em colunas sucessivas. Comecemos nos gregos então.


Para os gregos o universo, também chamado de cosmo, era finito e ordenado, ou seja, um espaço limitado onde tudo responderia a uma ordem, a uma finalidade. Trata-se de uma visão mecânica em certa medida, uma máquina composta de inúmeras engrenagens. Cada engrenagem com uma função, uma finalidade específica. Portanto,

uma só engrenagem fora de lugar ou funcionando mau prejudicaria todo o cosmo. Havendo uma finalidade em tudo, em todas as coisas, ao homem não seria diferente até porque este todo universal refere-se a tudo mesmo, coisas animadas e inanimadas.


Aos gregos também a noção do divino, de Deus, não se traduzia numa personalidade, num ser, antes, a divindade grega se referia a uma “inteligência universal”, especialmente em Aristóteles, ou seja, haveria uma força de inteligência que regularia tudo em um todo ordenado por partes interdependentes. Um sistema regido por uma inteligência onde cada parte teria uma função, uma finalidade, da qual dependeriam as outras partes. O cosmo pretenderia a harmonia.


Trata-se de visão finalista em resumo, finalidade em tudo que a natureza oferece. Haveria uma finalidade no vento, uma finalidade na planta, uma finalidade nos animais, na terra, nas águas (…) e no homem também. Todavia, aqui uma diferença importante. Tudo na natureza, com exceção do homem, seria regido pelo critério da necessidade. Necessidade aqui entendida como aquilo que só pode ser como é: o vento venta só como poderia ventar e assim venta perfeitamente, em encaixe perfeito com o cosmo; os animais se comportam como só poderiam se comportar, assim agem em perfeição com o cosmo, etc. Funcionariam todos (animais, vento, águas, terra, etc.) como só poderiam ser, em harmonia com sua finalidade cósmica, cumprindo sua finalidade, já o homem não.


Se a natureza em tudo seria necessária, o homem seria contingente. O homem poderia ou não se harmonizar com o cosmo, poderia ou não estar perfeitamente encaixado. Seria movido e influenciado pelas contingências da existência. Para os gregos, portanto, diferente da nossa visão atual onde o homem supera a natureza, lá ela seria perfeita e o homem uma possibilidade, lá ela seria excelente e o homem as vezes. A natureza superior ao homem. Mas então o que própria natureza reservou para o homem contingente?


Bem, sobre o homem para os gregos a natureza distribuiu talentos, aptidões. Haveria nos homens talentos naturais, mas, esta distribuição não seria igual em quantidade ou qualidade. Por natureza para os gregos haveriam homens com mais ou menos talentos, mais aptos ou menos aptos, por fim, mais alinhados à máquina cósmica ou não. Assim, muitos poderiam não cumprir sua finalidade adequadamente, desalinhados do todo cósmico, prejudicando a ordem. Daí por exemplo que Aristóteles justificava a escravidão: já que alguém não possui talento ou tem pouca possibilidade de desenvolvê-lo, melhor que sirva a alguém que possui mais talento e capacidade. A escravidão, por consequência, seria um ato de gentileza, de benevolência com os que atrapalham a ordem cósmica, os sem talento.


A vida boa para o homem então dependia da somatória de nascer com talento, descobrir qual o seu talento e ter capacidade ou oportunidade de desenvolvê-lo, se assim conseguisse seria um homem virtuoso. Este pensamento implica na conclusão de que para o melhor violonista o melhor violão, para o melhor pintor as melhores tintas e assim por diante. E os pobres de talento ou de oportunidades? Que sirvam aos que tem

talento. Para os gregos a diferença entre homens é dada de natureza e ponto, não há neles qualquer preocupação com igualdades. Um pensamento elitista é claro, a crença de que os homens são diferentes em qualidade e capacidade por natureza. Certo, e onde entra a ética?


Pois bem, a vida ética, a vida boa era aquela em que o homem de talento conseguiria desenvolvê-lo à excelência ao longo da vida. Buscar a excelência naquilo em que a natureza lhe deu, ser o melhor naquilo em se que nasce como vocação, ser o melhor em sua aptidão de natureza, coisa para poucos, inviável para o comum. A vida ética como a vida dedicada ao desenvolvimento excelente dos talentos naturais. Daí também a justificação da superioridade de uma aristocracia (aristocracia traduzida como a regra da excelência em grego ou o governo dos melhores politicamente). Os melhores deveriam governar em respeito ao cosmo e em acordo com a natureza.


Ser ético para os gregos, uma vida ética, boa, que valia a pena ser vivida nada se aproxima do que hoje entendemos como deve ser. Antes um homem ético lá se tratava de um privilegiado por natureza que acreditava ser dotado de maiores talentos que outros, um homem virtuoso para quem a escravidão, a submissão dos seus semelhantes era natural, senão indispensável para a boa ordem cósmica.


Alguma semelhança com certas posições muito atuais? Infelizmente, penso que sim. Os gregos, ou pelo menos a ética grega antiga ainda hoje faz eco em algumas cabeças e discursos que qualificam pessoas entre melhores e piores. Se não hoje mais pelo talento de natureza, muito pela cor de pele de natureza, pela condição social de natureza, pelo gênero de natureza, pela etnia de natureza, pela opção sexual “contra a natureza” e assim vai pela estupidez de natureza.


Fica o alerta aos eruditos de plantão de certo cuidado ao fundamentarem suas posições na ética grega ou mesmo na democracia grega (ela mesma elitista e excludente que compreendia uma parcela mínima da população, assunto para outra conversa) para digamos assim, não se protegerem em um escudo duvidoso se importado no tempo sem reflexão ou conhecimento dos seus significados exatos, muito comum em alguns “doutores”.


Na próxima coluna vamos falar da primeira cisão com este pensamento na nossa viajem pela interpretação etimológica do conceito, a ética cristã e a novidade do princípio de igualdade entre os homens onde Deus sobrepõem a natureza. Até lá.

39 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo

Receba nossas atualizações

Bisbi Notícias: Rua Constituição 318, Zona 1 - Cianorte PR - (44) 99721 1092

© 2020 por bisbinoticias.com.br - Todos os direitos reservados

  • Branca Ícone Instagram
  • Ícone do Facebook Branco