Uma causa nobre: chama-se Vida

Por Ana Floripes - Professora



Nosso grito ainda é solitário, pois quando uma causa pela Vida precisa ser decidida em cadeiras do Judiciário, significa que o nosso nível de humanização é precário. Logo, faz desacreditar nos governantes, descaracteriza o valor precioso do viver.


Testemunhar agravamento de doença mental é terrível, e, por que não dizer, insuportável quando é em função da indiferença. A Indiferença! Maiúscula! Aquela que enxerga com olhar desvão, e silenciosamente aniquila, naquela fenda onde se deixa estar, o direito de estar vivo e mentalmente vinculado ao mundo.


O que representam 25 anos quando o assunto é voltado à área da saúde mental? O que significa ser Professora de Apoio Educacional Especializado de estudantes com Transtornos do Espectro Autista e outros que apresentam - ou não - variados diagnósticos de Transtornos Mentais sendo que, a maioria, passou ao largo do atendimento e acompanhamento da área da saúde? Respondo: significa ter presenciado situações inverossímeis, ter experimentado o efeito do descaso, da dor emudecida pela falta de apoio, de políticas eficientes, de políticas para o próximo.


Quando teve início o atendimento no Centro de Atendimento Psicossocial de Cianorte - às pessoas acima de 18 anos - por várias vezes solicitei atendimento à população infantojuvenil. A resposta invariável, quase monótona, pronta, automática: “não temos estrutura”. Parece simples, certo? “Não temos estrutura”. Então, cabe dizer o que isso significa na vida de uma pessoa: esperar a idade de 18 anos para ser atendida em suas necessidades urgentes. A necessidade não tem maioridade. Foi nesse cenário que acompanhei, triste e indignada, o enlouquecimento, o suicídio e a tentativa de suicídio de crianças e adolescentes. No decorrer desses 25 anos, tentei de todas as formas gritar por socorro, porque há matrículas nas escolas. Essas crianças e adolescentes EXISTEM!

Portanto, gritar, sim, porque a situação é desesperadora.


Naquele tempo, nos períodos de desespero, conseguíamos uma ou outra consulta, nada mais. Quando era necessário retornar, em caso de emergência, não conseguíamos. Fomos obrigados a acompanhar o sofrimento psíquico de estudantes e testemunhar, de mãos atadas, o agravamento da doença. Presenciamos, inclusive, encaminhamento de estudantes para Hospitais Psiquiátricos, o que seria a última opção em uma escala de tratamentos ideais. A eles, foi negada a chance de tratamento digno, em pleno período em que transita a lei 10.216/2001. É isso mesmo, 2001. Quando falta a sensibilidade, sobra-nos legislações... e relatos que mortificam, basta rememorar.


Certa vez, estive presente em uma reunião do Conselho Municipal de Saúde, sempre em busca de apoio, de um olhar mais atento ao problema, de algum ímpeto de ajuda. Foi simples a resposta: “em nosso município, por não ter o número de habitantes que a Lei Federal exige, não poderá ter o serviço para atender essa demanda.” Então, questionei: “e o que acontecerá?” A resposta? “Morrerá ou terá que mudar de município”.

Enquanto isso, durante a chamada em sala de aula:

Número 01 – Afastado/depressão.

Número 09 – Afastado/transtorno de conduta grave

Número 20 – Afastado/fobia social

Número 30 – cometeu suicídio

E assim por diante: Ah! Quem são os responsáveis?

Nós todos... com a nossa Indiferença, aquela que não se importa com a desvantagem alheia.


Peço um esforço: imaginem uma sala de aula com trinta e cinco estudantes. Entre eles, diversos diagnósticos de hiperatividade, transtorno de conduta, esquizofrenia, entre outras condições que, lembremos, são humanas... quem poderá rogar-se livre? Acrescente à imaginação o não acompanhamento de equipe multidisciplinar. Conseguiu?

Muito bem. Nosso grito ecoa para fora dos portões da Escola, mas, às vezes, a sensação é de que poucos entendem a gravidade da situação, ou fazem de conta que não entendem porque, afinal, ser pobre nesta sociedade não é fácil. Ser pobre com transtornos mentais é inadmissível.


A Indiferença, aquela cínica...


A nossa profissão é recheada de desafios e as condições de trabalho, muitas vezes, subumanas. Sempre há o discurso sobre Educação Inclusiva, mas esqueceram de avisar que as demais áreas devem ser inclusivas, principalmente com relação ao orçamento público. Mas, o leitor destes relatos, a esta altura, deve esperar por um desfecho. Pois vamos a ele:

Nesses últimos anos, entre tantas outras situações perturbadoras, acompanhei casos de pessoas presas dentro de casa, com os vizinhos afirmando que eram possuidoras de espíritos ruins. Morreram alguns, outros desapareceram das escolas, outros ainda frequentam o CAPS adulto ou estão internados em Hospitais Psiquiátricos.


Pois bem, em Janeiro de 2016, o CAPSi foi oficializado no município e graças a qualidade do atendimento, nossas crianças e adolescentes estão sendo atendidos e muitos problemas foram minimizados. A demanda é grande e os diagnósticos variados. Atualmente recebemos estudantes, na faixa etária de 12 a 14 anos, com Transtorno do Espectro Autista e os diagnósticos estão sendo fechados tardiamente. Outros ainda, nem sequer imaginam seus possíveis diagnósticos, principalmente com relação ao sexo feminino e necessitam de cuidados especiais. O atraso no atendimento causa danos irreparáveis. Portanto o assunto é gravíssimo e merece a atenção de todos.


Este texto é um desabafo, está claro. Seu intuito, e meu intuito, não é atingir a imagem de ninguém. Não é fazer política, em sentido empobrecido, com algo tão sério. Mas é, acreditem, aquele fio de voz que nunca desaparece quando se está de fato engajada em uma luta que, até aqui, tem se mostrado assaz dolorosa. Para além do que já seria, pela própria condição patológica de nossa população infantojuvenil. Dolorosa, porque, ah... a Indiferença... aquela que tudo vê, e nada faz.


Por fim, sugiro a seguinte pauta: Implantação de um Centro de Atendimento Especializado para atender pessoas com Transtorno do Espectro Autista – TEA, com objetivo de realizar a intervenção precoce e com protocolo seguro de saúde. O mesmo deverá ser composto por profissionais aptos a diagnosticar crianças no espectro, atender, capacitar profissionais da área da saúde e educação, bem como, apoiar as famílias com relação às áreas psicológica e jurídica. Também inserir e acompanhar por um período de tempo o público-alvo, no mercado de trabalho.


É hora de fortalecermos as Políticas Públicas de Saúde Mental.


Agradeço a atenção dos leitores, e espero, sempre confiante, tê-los conosco nesta caminhada. Nesta trilha. Neste caminho pela superação e pela vida.



*Esse texto é direcionado, principalmente, aos Candidatos eleitos em 2020 no município de Cianorte-Paraná.

Fonte da imagem: senadonoticias

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