Trabalho, pandemia e lazer: parte 2

Por João Paulo Dantas - Jornalista, especializado em audiovisual e cinema.


Sinceramente, não julgo os que não abrem mão do seu lazer



Conversamos no último texto, de forma bastante sucinta, sobre três questões primordiais nos tempos atuais: o trabalho e o lazer - direito de qualquer cidadão: os dois em tempos de pandemia. Argumentei sobre a importância e necessidade das medidas restritivas impostas em todo o Brasil, com mais ou menos severidade. Porém, continuo com a reflexão: como podemos, de forma assertiva, argumentar com o trabalhador sobre a obrigação do trabalho em detrimento do lazer?


Primeiramente, de forma desafortunada, precisamos pensar que as condições de trabalho no Brasil, como um geral, são totalmente desumanizadas. É a partir do trabalho, realizado muitas vezes de formas grotescas e precárias, que o trabalhador tem acesso à comida (o essencial) e o lazer - bares, restaurantes, cinema, cultura etc. O professor Guilherme - a Rita Von Hunty - , que citamos no artigo anterior, reforça que "para que o indivíduo trabalhador possa se configurar como ser humano (ou seja, ir ao parque, ir ao cinema, jantar com os amigos, ir ao cinema), para que descubramos quem a gente é, primeiro a gente precisa de um acesso material a nossa subsistência, e esse acesso vem por meio da exploração da nossa mão de obra, da venda da nossa força de trabalho". E finaliza: "para ser um humano, primeiro a gente precisa ser um trabalhador".


Ainda fica o questionamento, na reflexão de Rita: se para nos constituirmos enquanto seres humanos, precisamos trabalhar, o que acontece com os desempregados e marginalizados? A possibilidade delas se tornarem seres humanos são menores. O desemprego no Brasil hoje, está na faixa de 14,3% - 14,1 milhões de pessoas. Isso sem contarmos os desalentados e aqueles que vivem de bico - sim, os bicos também incentivados pela Reforma Trabalhista de 2017, que geraria milhões de empregos. Risos.


Compreendem a complexidade do momento em que vivemos? Estamos em uma pandemia; a economia de Paulo Guedes que nunca deu resultado, conseguiu piorar; o trabalhador hoje precisa ralar mais e ganhar menos; o poder de compra diminuiu consideravelmente.


Não incentivo aqui o fim de medidas restritivas para proteger a população do coronavírus. Porém, definitivamente não encontramos a solução. Não trato aqui da questão de saúde mental, afinal, se resguardar em casa é medida de empatia para com aqueles que trabalham no dia seguinte se expondo ao vírus. O que coloco em cheque em meus artigos é o julgamento do trabalhador que passa horas a fio em suas labutas, e simplesmente são severamente criticados por estarem em um bar ou restaurante, isso quando não são multados ou presos por estarem em momentos de lazer.


Sinceramente? Eu não julgo.

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