Temas contemporâneos em Educação e Saúde Mental: luta antimanicomial

Por Ana Floripes - Professora



"Essa é a razão de “não existir” autistas antigamente, de "nossa como tem hoje em dia", de o autismo "tá na moda".

Essa é razão porque não teve “coleguinhas” autistas em sala de aula, nem na igreja, nem no estágio, nem na faculdade.

Essa é a razão porque você “vê poucos” autistas adultos tendo uma vida mais independente.

Eles e suas famílias não tiveram a oportunidade que nós tivemos, de poder fazer parte, de estudar, de aprender, de ter os direitos assegurados.

Hoje, você e eu temos o dever moral de sensibilizar pessoas, quebrar paradigmas, incluir, ensinar, buscar soluções e recomeçar.

Pq ser feliz é direito de todos.

Repensar, reavaliar as ações, retroceder jamais! Imagem chocante, mas viva no pensamento de algumas pessoas.

Editando: disseram que a história é falsa, me chamaram de mentirosa etc. Fui pesquisar melhor sobre a tal foto e a história é pior ainda. Foram esquecidos! Abandonados. E eu continuo afirmando, quem estudou sobre a história dos manicômios sabe do que eu estou falando, se vier com papo furado, vou excluir, respeite a minha luta de profissional da área e de mãe de autista." Aline Seubert


Hoje, deparei-me com a postagem e imagem acima no Facebook. Tentarei contribuir por meio de ações que facilitem o desenvolvimento do pensamento, acerca do tema. Estamos no século XXI.


No ano de 2018, no Colégio Estadual Igléa Grollmann – EFM, de Cianorte-PR, foram realizadas ações, com o objetivo de introduzir o tema contemporâneo, “Luta Antimanicomial e a Reforma Psiquiátrica”. Essas foram planejadas por Professores das disciplinas de Sociologia e Filosofia. A mediação foi realizada pela Professora de Atendimento Educacional Especializado, a partir do convite do Centro de Atenção Psicossocial – CAPS, encaminhado pela chefe da Divisão de Saúde Mental, Thaíse Dantas, para participar da atividade “Sarau Antimanicomial”. A mesma ocorreu no dia 23 de maio e houve apresentação de música, poesia, arte manual, teatro, inclusive com uma experiência que retratou o modelo do manicômio do passado e o atendimento atual executado pelo referido equipamento de saúde. Os protagonistas das atividades foram os usuários do serviço e funcionários. Para tanto, no sentido de prepararmos os estudantes das terceiras séries com relação ao tema e utilizamos como estratégia o filme “Nise da Silveira – o coração da loucura” e o documentário “Holocausto Brasileiro". Em seguida, ocorreu debate e produção de textos. Ao final das apresentações do Sarau, as turmas aplaudiram em pé e abraçaram colegas da escola que também são usuários do CAPS.


Quanto ao filme "Nise da Silveira – o coração da loucura" e o documentário "Holocausto Brasileiro", os estudantes responderam alguns questionamentos, por meio de debate, entre eles: a) Como percebeu a relação médico-paciente com foco na naturalidade do discurso científico? O que significou o holocausto brasileiro? Quais são as diferentes maneiras de pensar a “loucura”? De acordo com a experiência relatada no filme, qual seria o potencial da Arte? A mensagem do filme os levou a repensar sua ideia sobre a "loucura"? Já tinham ouvido falar em Nise da Silveira?


Tivemos a participação de 100% dos estudantes no debate e o que mais evidenciou-se nas falas, foi sobre o silêncio irreparável acerca das tragédias ocorridas tanto no Rio de Janeiro quanto em Minas Gerais, seguem alguns dos registros:


"Por fim o silêncio que houve diante do holocausto brasileiro foi terrível e irresponsável, para se ter noção matou 60.000 brasileiros, uma mera coincidência com um regime totalitário o nazismo, além do mais todo esse ocorrido me fez repensar a ideia de loucura e normalidade e me motiva a lutar por uma causa nobre e saber mais, até conhecer os casos atendidos no CAPS que é fruto de uma luta enorme." M. E., 16 anos, Turma Galilei Galileu.


"A ideia inicial que tenho consiste em apresentar os trabalhos realizados no Capsi como forma de conscientização e exposição dessas atividades. Poderíamos mostrar na prática os resultados produzidos nas oficinas pelos usuários e demonstrar o valor e necessidade desse movimento. Outra sugestão seria trazer esse projeto para a escola e contar as experiências de alguns usuários, para que todos entendam que a ajuda é necessária e não vergonhosa. As oficinas deveriam apresentar seus trabalhos de arte e música e os usuários falariam sobre suas experiências pessoais no Capsi." V. K., 16 anos, Turma René Descartes. Usuária do Capsi.


Na atividade realizada no CAPS a atenção e concentração dos estudantes estiveram em um nível acima do esperado e houve muita emoção. Assistiram à peça de teatro que retratou um pouco da luta Antimanicomial, apresentação musical e interagiram com os profissionais da área da saúde. Em seguida, visitaram uma sala onde havia o modelo de manicômio do passado, na outra sala o modelo atual de atendimento do CAPS e as oficinas terapêuticas apreciaram as telas pintadas pelos usuários. O ponto alto da manhã foi o momento em que uma estudante conheceu a turma a qual pertencia na escola. Ela foi atendida por meio atendimento domiciliar e a frase final da mesma aos colegas: "Nos reencontraremos em um dia muito especial de dezembro: nossa formatura".


Ao retornarmos ao Colégio, professores e os 80 estudantes, escrevemos sobre a experiência. Em seguida, a diretora Luciana Mara Tachini Barbosa, escreveu um ofício parabenizando o CAPS e também encaminhou os textos dos estudantes como avaliação do evento.


Todas as mensagens foram importantes, seguem alguns trechos:


"Foi incrível essa visita ao CAPS. É tão bom ouvir, ver e sentir pessoas que nunca te julgarão pelo que você é. A energia gostosa que emanou daquele lugar, as músicas tocadas e cantadas me emocionaram e me alegraram de uma forma surreal. Eles foram muito receptivos e tudo ali respirava Arte. Todos eram artistas. Eu fico plenamente feliz quando percebo que a luta antimanicomial trouxe resultados como este e que sempre a sociedade coopere para um ambiente mais inclusivo em todos os aspectos." M. F.


"A preparação antes da visita foi extremamente importante para o bom comportamento e compreensão da profundidade das atividades apresentadas durante o Sarau. As apresentações foram lindas e tocantes e serviram para abrir nossos olhos sobre a luta antimanicomial e tocou muitas pessoas". A. N.


"Hoje no Sarau tivemos a oportunidade de aprender mais sobre o atendimento psicossocial que o CAPS realiza. Recebemos informações que muitos não tinham conhecimentos relacionados aos manicômios, neste dia de Sarau sobre o assunto do movimento antimanicomial. Tivemos apresentações culturais. Fiquei muito feliz em ver que o trabalho do CAPS continua a ajudar as pessoas. Já fui atendido lá também." B. R.


"Através da escola tivemos uma experiência incrível, conhecendo a história de uma grande luta, que levou anos para se conseguir tratamento humanizado, entender que podemos ajudar uns aos outros com amor, arte, música e carinho. Ela nos ensinou que todos nós temos que cuidar de nossa saúde mental e que graças a luta de todos hoje em dia podemos buscar atendimento e acabar com esse tabu. Eu vejo o CAPS como uma família, um lugar de paz e de acolhimento, é como um mini paraíso onde você se expressa, é ajudado e onde não há julgamentos, só acolhimento. De certa forma tudo me tocou e me ajudou a perceber que eu também preciso de ajuda. Me tocou muito saber ainda existe esperança e que nenhum sofrimento é para sempre. Tudo foi lindo e especial. Eu particularmente chorei todos os momentos e sou grata pelo Colégio ter me dado essa oportunidade". V. B.


"A experiência de estudar em um Colégio inclusivo e inserido na luta pela diversidade: é única. Desde que comecei a estudar aqui é possível ver o trabalho de inclusão liderado pela professora efetiva da escola, Ana Floripes. Conhecer o CAPS foi ótimo. Observei o resultado positivo do trabalho dos profissionais com os usuários do projeto. As apresentações foram ótimas, mas o que mais me tocou hoje foi a apresentação teatral e ver a garota de nossa escola cantando, nossa amiga, que antes apenas conhecia seu nome pela chamada." Z.K.


Enquanto isso, nas turmas de primeiras e segundas séries, o professor de Sociologia, Lucas Monteiro, com o apoio das professoras da Modalidade de Educação Especial e pedagogas, trabalhou os temas: 1) História da Lei Berenice Piana. 2) Transtorno de Ansiedade e Depressão e a lei de implantação e implementação do Caps no Brasil. 3) Filmes e conteúdo sobre níveis do Autismo. 4) Lei 12.764, sancionada em 28 de dezembro de 2012, que instituiu a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtornos do Espectro Autista. 5) Níveis do Autismo. 6) Projeto de lei 7081/10 para estudantes com TDAH e Dislexia. 7) Altas Habilidades.


Enfim, o corpo discente estudou, discutiu, apresentou o trabalho à frente da sala de aula e também por meio de cartazes que foram afixados no espaço escolar. As turmas tiveram experiências sobre como se sente uma pessoa com autismo em lugares ruidosos. Foram utilizados os óculos 3D. Na turma Arquimedes, onde havia matrícula de estudante com TEA, percebemos que ele, naquele momento, tomou consciência de que os demais colegas sentem o mundo de forma diferente, porque verbalizou: "Vocês não sentem da forma como eu me sinto, não sabia?". Nesse momento, a professora Ana Floripes, da Modalidade de Educação Especial e a professora Debora Grygutsch Hellwings, de Filosofia, explicaram as diversas maneiras de sentir o mundo e de expressar-se. Houve 100% de participação e o resultado com relação à apreensão do conteúdo acadêmico foi exitoso.



Atividade: Segue, matéria da experiência sobre a sensação de pessoas no espectro em lugares ruidosos.


http://g1.globo.com/pr/parana/videos/v/colegio-de-cianorte-desenvolve-projeto-de-inclusao-para-alunos-vivenciarem-o-autismo/8212014/



Para finalizar o assunto deixarei a reflexão: com relação ao tema da redação do ENEM, realizado em 2021, “O estigma associado às doenças mentais na sociedade brasileira”, você sabia que o conteúdo de Sociologia foi cobrado no mínimo em vinte questões e a parte de Ciências Humanas e suas tecnologias teve quarenta e cinco tópicos? O que significa que 60% da prova específica contemplou as referidas disciplinas?


Você sabia que as disciplinas de Arte, Filosofia e Sociologia tiveram a carga horária reduzida pela metade no currículo da Rede Estadual de Ensino do Estado do Paraná? E o que isso tem a ver com o conteúdo “Saúde mental e os desafios contemporâneos? Tudo ou nada. Dependerá do nível de conhecimento científico ou do grau de alienação de cada um.


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