Qual o seu propósito?

Por Jake Marcon





O filme Soul, da Disney, lançado em 2020, traz um roteiro muito interessante que discute de forma incrível o sentido do propósito da vida. O longa provoca uma reflexão a respeito da consciência sobre a razão da própria existência e do trabalho enquanto profissão e produtividade.

A animação nos permite lembrar de casos de pessoas muito bem-sucedidas nas suas profissões, aparentemente promotoras dos seus propósitos, que desistiram ou findaram com a própria existência. Robin Williams, que inclusive fazia rir; Amy Winehouse, que brilhava nos palcos; Elis Regina, dona de uma das vozes mais deslumbrantes que o mundo já ouviu, entre outras pessoas que chegaram no topo de suas profissões, aparentemente cumpridoras dos seus propósitos.

O contexto “pós-modernista” do séc. XXI, no qual se mede a razão de ser pela produtividade e resultado, sobretudo divulgados nas páginas sociais, busca anular o que nos faz humanos, vela e subestima todo trabalho que não é glamoroso, ao ponto de, de forma subliminar, dar a entender que pessoas “comuns” não encontraram o propósito das suas vidas. Esse fato é intrigante, pois acredito que mais 99% da população seja feita de seres “normais”.

Duarte (2013), na sua obra A Individualidade Para Si, bem coloca que “a atividade humana é uma atividade histórica, geradora de história, do desenvolvimento humano, da humanização da natureza e do próprio gênero humano, em decorrência de algo que caracteriza a especificidade dessa atividade diante de todas as demais formas de atividade de outros seres humanos” (DUARTE, 2013, p.35).

Segundo a Organização Mundial de Saúde a depressão é o mal do século XXI. A ansiedade afeta 18,6 milhões de brasileiros. Os transtornos mentais são responsáveis por mais de um terço do número total de incapacidades nas Américas. Isso faz pensar que algo velado existe no reino dos humanos, pois temos um processo contraditório entre teoria e prática social.

Dentro de uma perspectiva freudiana de que o fetiche é inerente a tudo que nos encanta, podemos, no auge da consciência, considerar o fato de que ter um propósito de vida estruturado na execução de um trabalho, aparente aos espectadores, num mundo de aparências, tem como consequência a distorção da razão de ser do próprio trabalho e da própria razão de ser.

É óbvio o fato do trabalho estar relacionado à profissão e essa, por sua vez, estruturada em garantir a nossa subsistência. Mas quando se reduz o propósito de vida em atuação profissional e se exige dele (fama), retira-se dos homens e mulheres o sentido do trabalho humano, que é transformar a si mesmo (a) e a natureza que os cerca.

Existem Marias que, por escolha ou condição, criaram filhos, educaram, fizeram a gestão da família por anos, e são vistas como mulheres comuns. Existem Josés que saíam de casa para trabalhar sem um puto no bolso, para ter dinheiro para o sorvete das crianças no final de semana. Existem Joãos, Joaquins, Franciscas, infinitas histórias de propósitos anônimos, que dentro de uma teoria contraditória de sucesso, ofuscam o brilho e a magnitude das características humanas e emancipatórias que exercem.

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