Covid-19: pandemia e a cegueira social

Atualizado: Mar 2

Por Ana Floripes - Professora






“No início da pandemia ouvia-se no sul do Brasil: ‘Pra que comprar respirador? Pra que instalar UTI? Pra que hospitais de campanha?’ Circularam no whatsapp ‘videozinhos’ de hospitais de campanha vazios, sugerindo corrupção, afinal julgavam que tudo era somente pra roubar dinheiro e bancar profissionais parados. Realmente a manutenção dessas estruturas deve ter um alto custo. E a estrutura que tínhamos parecia ser o suficiente naquele momento e o colapso era algo distante e inimaginável com muitos fazendo o 'tratamento precoce'. Cientistas não foram ouvidos, leigos no assunto acreditavam que a 'gripezinha' passaria e o alto investimento era desnecessário. Esqueceu-se da imprevisibilidade do vírus. Agora, cobra-se o investimento antes por muitos criticado. E quanto ao atraso na aquisição e fabricação das vacinas, sabemos quem é o maior responsável. Ou seja, a polarização política cegou-nos e só atrapalhou o uso da razão na condução da pandemia. Fake news sobre o uso de máscaras, tratamentos, etc., foram e são repassadas sem qualquer checagem. Em algumas delas, ao verificarmos seus próprios links de fontes, ali mesmo já descobrimos que o texto fora distorcido ou muitas vezes erroneamente interpretado. O próprio autor da fake news sabe que o replicador sequer checa as fontes citadas. Triste cenário.” Fabiana de Lima Aguiar


Venhamos e convenhamos, a maioria das pessoas não aguenta mais esse papo de “politicagem” no meio da pandemia. Está num nível, insuportável. Já é hora de descermos da arquibancada e pararmos de nos comportar como torcida “organizada” desse ou daquele “político”. A situação é muito séria, o desgaste é grande para todos e principalmente para os profissionais da área da saúde.


Em plena pandemia, há quem ainda se “escore” somente nas decisões de nossos governantes e em algumas situações, sem o aporte científico. Outros, não aguentam mais ser reféns de negacionistas. Há decisões acertadas, outras nem tanto e outras ainda erradas, faz parte do processo de acerto, a COVID-19, ainda em muitos aspectos, é desconhecida. As pesquisas seguem e não há vacina para todos. Nesse momento, quem está vencendo em nosso país, é o coronavírus e suas variantes. Há quem diz que essa última frase é incorreta devido ao número de curados. Bem, se realmente estivessem curados, não correriam o risco de contaminarem novamente. A sensação é que estamos enxugando gelo com pano.


Há um ano, nos comovíamos com o sofrimento de outros países. Parecia impossível que passaríamos pela mesma situação. Manaus, um exemplo dolorido, e as discussões continuam no campo da politicagem. Muitas pessoas morrendo sem terem a chance de atendimento e muitos profissionais da saúde exaustos, sofrendo e muitos perdendo a vida. Infelizmente, muitas pessoas ainda negam a doença para não enfrentar a realidade. Ela é nua e crua. A politicagem é um vírus também e associado ao coronavírus é só morte.


É preciso amadurecermos e pararmos de terceirizar nossas responsabilidades. Ninguém mais suporta pessoas que são intolerantes às regras. Querem ter direitos, mas não se atentam aos deveres com relação ao convívio em sociedade.


Um ano se passou e os profissionais da saúde continuam ensinando os protocolos sobre medidas preventivas aparentemente simples, a regra: “Não aglomere”, daí o que vemos? Aglomeração. “Mantenham o distanciamento social”, e o que vemos numa fila nos comércios, bancos, etc? “Usar máscaras corretamente”, e o que vemos? “Higienização das mãos”, e o que vemos? “Não é hora de festa onde se aglomera pessoas”, e o que vemos?

Daí quando as coisas não dão certo devido também a desobediência das regras, percebemos a tendência de se transferir toda a nossa responsabilidade aos políticos que endurecem ou flexibilizam os decretos. O colapso na área da saúde foi a primeira lição de março do ano passado, como consequência, de não adotarmos novos hábitos. Tínhamos os exemplos de outros países, mas também, muitos pensaram que aquela realidade nunca chegaria até nós, chegou. O SUS precisa ser PRESERVADO, mesmo com todas as falhas. Sem ele estaríamos à deriva, se bem que às vezes, tenho a sensação de que estamos, justamente porque onde falta educação, sobra estupidez.


É preciso trabalhar para sobrevivermos. Logo, devemos seguir regras.


Enfim, além do coronavírus é preciso neutralizar as ações dos negacionistas. Elas matam!


Para pensarmos: repetimos o ano de 2020 por aprendizagem não satisfatória ou passamos "empurrados" para o ano 2021? A Covid-19 é uma doença coletiva. Talvez, esse seja o nosso maior desafio, pensarmos coletivamente.


Reflexão de Jung durante a I Guerra, que se tornou o Primeiro Prefácio (1917) de Psicologia do Inconsciente:


"A psicologia do indivíduo corresponde à psicologia das nações. As nações fazem exatamente o que cada um faz individualmente; e do modo como o indivíduo age, a nação também agirá. Somente com a transformação da atitude do indivíduo é que começará a transformar-se a psicologia da nação. Até hoje, os grandes problemas da humanidade nunca foram resolvidos por decretos coletivos, mas somente pela renovação da atitude do indivíduo. Em tempo algum, meditar sobre si mesmo foi uma necessidade tão imperiosa e a única coisa certa, como nesta catastrófica época contemporânea. Mas quem se conhece a si mesmo depara invariavelmente com as barreiras do inconsciente, que contém justamente aquilo que mais importa conhecer."

No prefácio à segunda edição (1918) acrescenta:

É indispensável que em cada indivíduo se produza um desmoronamento, uma divisão interior, que se dissolva o que existe e se faça uma renovação, mas sem impô-la ao próximo sob o manto farisaico do amor cristão ou do senso da responsabilidade social - ou o que quer que seja usado para disfarçar as necessidades pessoais e inconscientes de poder. O autoconhecimento de cada indivíduo, a volta do ser humano às suas origens, ao seu próprio ser e à sua verdade individual e social, eis o começo da cura da cegueira que domina o mundo de hoje."



A caverna de Platão e as imagens



Em tempo:

Quanto à COVID-19 e o que está no plano de fundo desse cenário, o tempo responderá. Por enquanto, lutamos contra os efeitos e não as causas. Ou seja, estamos enxugando gelo com pano, por não sabermos quase nada sobre as causas, portanto, há duas saídas: ouvirmos somente os políticos ou ouvirmos os profissionais da área da saúde que estão à frente dessa batalha. A verdade é que de março de 2020 a março de 2021 tivemos um ano para mudarmos hábitos que não se adequam mais a nova realidade. O cansaço e sofrimento advindos dessa luta têm piorado por uma situação básica: grupo A e grupo B, ambos, não admitem que o considerado “oponente” possa ter razão em alguns aspectos. O orgulho é muito grande e é mais fácil hostilizar por meio de apontamentos de dedos e língua “afiada”, do que somar. Ademais, há o grupo C. Ele consegue enxergar pontos positivos e negativos nos posicionamentos dos grupos citados. Esse, é hostilizado, muitas vezes, pelos grupos A e B. Dizem que ele não tem “identidade” porque é “amigo” de todos. Há uma infinidade de grupos, o D fica em silêncio o tempo todo...


Resumindo: ninguém está certo ou errado o tempo todo. Errado mesmo, é não admitirmos que o outro, nosso possível “desafeto” acerta e erra, igual a nós.


Quanto a mim, não estou nenhum pouco interessad em defender meu ponto de vista, como verdade. Todavia, diante do cenário, levantamos hipóteses. Elas poderão ser comprovadas ou não. O problema são as informações e desinformações veiculadas e que o senso comum se apropriou. Sem o aporte científico continuaremos no mesmo ponto e achando que o desinformado sempre será o outro. Há muitos que se acham informados por meio das fake news.


A meu ver a lição que deve ser apreendida após a pandemia: o investimento na educação, na pesquisa, é imprescindível: a Ciência, salva vidas.


Enfim, Sartre, em sua obra “O inferno são os outros”, traz a questão de que não somos nada. A partir de nossas escolhas vamos nos adaptando e toda a liberdade resulta em angústias. Nesse sentido, cada qual faz suas escolhas e acertar ou errar faz parte do processo de evolução.


Questão para pensar: somos capazes de reconhecer nossos erros? Temos a humildade de reconhecer e falar sobre os acertos daqueles que supostamente “combatemos”?








238 visualizações

Posts recentes

Ver tudo

Receba nossas atualizações

Bisbi Notícias: Rua Constituição 318, Zona 1 - Cianorte PR - (44) 99721 1092

© 2020 por bisbinoticias.com.br - Todos os direitos reservados

  • Branca Ícone Instagram
  • Ícone do Facebook Branco