O tempo e as jabuticabas.


Por: Rubem Alves



Contei meus anos e

Descobri que terei menos tempo para viver

Daqui para a frente do que já vivi até agora…

Tenho mais passado do que futuro…

Sinto-me como aquele menino

Que recebeu uma bacia de jabuticabas…

As primeiras, ele chupou displicente…


Mas percebendo que faltam poucas,

Rói o caroço…

Já não tenho tempo

Para lidar com mediocridades…

Não quero estar em reuniões

Onde desfilam egos inflados…

Inquieto-me com invejosos

Tentando destruir quem eles admiram,

Cobiçando seus lugares, talentos e sorte….

Já não tenho tempo

Para conversas intemináveis…

Para discutir assuntos sobre vidas alheias

Que nem fazem parte da minha…

Já não tenho tempo para administrar

Melindres de pessoas que,

Apesar da idade cronológica,

São imaturas…

Detesto fazer acareação de desafetos

Qua brigaram pelo majestoso

Cargo de secretário geral do coral…

"As pessoas não debatem conteúdos…

Apenas rótulos…"

Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos…

Quero a essência…

Minha alma tem pressa…

Sem muitas jabuticabas na bacia

Quero viver ao lado de gente humana, muito humana…

Que sabe rir de seus tropeços…

Não se considera eleita antes da hora…

Não foge de sua mortalidade…

Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade…

O essencial faz a vida valer a pena…

E para mim

Basta o essencial!

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