Maria Clara: enfrentou a deficiência cultural, conquistou o Ensino Médio. E agora?

Atualizado: Jan 11


Maria Clara é primeira garota com Síndrome de Down a concluir o Ensino Médio em Cianorte (Foto: Aida Franco de Lima)


  • Por Ana Floripes Berbet professora há 35 anos. Especializada em Pedagogia Escolar, Geografia e Meio Ambiente e Educação Especial Visão Integradora – Ensino Especial/Ensino Regular; graduada em Geografia; trabalha no Colégio Estadual Igléa Grollmann, de Cianorte – PR, na função de Professora de Apoio Educacional Especializado. Recentemente aposentou-se no padrão estadual de História & Aida Franco de Lima – Professora universitária há 20 anos. Dr.ª e Mestre em Comunicação e Semiótica (PUC-SP), Jornalista e Especialista em Educação Patrimonial (UEPG - PR); Guia Especializada em Atrativos Turísticos Naturais (SENAC - EMBRATUR);Técnica em Vestuário (CEEP - PR); escritora (Série: Guardador de Palavras da Gabi).

Dia 22 de dezembro de 2017, sexta-feira, o auditório da Unipar em Cianorte - Pr, levantou-se para aplaudir a formanda Maria Clara Morezzi da Silva, na época com 20 anos. Ela é o símbolo de que quando o estudante, apoiado por sua família e todo o Colégio em que estuda, incluindo os colegas, os funcionários dos mais variados níveis e o corpo docente, consegue subir os mais altos degraus. Na ocasião, todos vibraram com sua conquista. Três turmas participaram da colação de grau: René Descarte, Galileu Galilei e Isaac Newton em um total de 92 alunos.


Hoje, janeiro de 2021, mas qual o motivo de publicarmos o texto? Século XXI, apenas uma garota com síndrome de Down, em Cianorte, concluiu o Ensino Médio. Ainda fica mais uma questão: após o Ensino Médio, o que de fato é oferecido às pessoas com deficiência para continuarem se desenvolvendo?



Detalhe da formatura de Maria Clara. Uma barreira, de intermináveis, vencida. (Foto: Aida Franco de Lima)


O MEU FILHO É PERFEITO, DOUTOR?


Qual pai e mãe não perguntou ao médico, ao saber da gravidez e os respectivos exames, ou mesmo logo após o parto, se o filho era perfeito? Mas o que é perfeição? O preconceito às pessoas com deficiência configura-se como mecanismo de negação social, principalmente porque a sociedade potencializa as faltas e carências. Sendo assim, coloca-se limites na questão da potencialidade e tudo é “coordenado” pelo pré-conceito e desconstruí-lo leva-se muitas gerações. Nenhum pai deseja que o filho nasça com 'imperfeição' e muito menos a sociedade está apta a acolher esse seu mais novo membro.


Maria Clara, deixa muitos pontos de interrogações quanto a nossa deficiência cultural. Pena que as pessoas só sentem na pele quando passam pela experiência. Muitas vezes, essas mesmas pessoas, antes da experiência, também não se preocupavam com o assunto e olhavam com estranheza pessoas na condição citada. Talvez, seja por isso que a nossa evolução seja tão lenta. Precisamos aprender na dor, quando essa dor é nossa, para então crescermos com o amor, quando sentimos empatia pelo outro. Mesmo que o outro não seja o filho ou alguém com a mesma consanguinidade.




Maria Clara é a primeira a conseguir terminar o Ensino Médio em Cianorte mas não pode ser a última (Foto: Divulgação)


No ano de 2013 representantes do Colégio Estadual Igléa Grollmann iniciaram um movimento no município de Cianorte para a implantação do Capsi - Centro de Atendimento Psicossocial Infantojuvenil porque na mesma turma que Maria Clara estudava havia colegas que necessitavam de tratamento e acompanhamento psiquiátrico, também havia uma demanda reprimida no município.


E os resultados extraordinários alcançados extrapolaram o recinto escolar pois proporcionou a criação do Centro de Atenção Psicossocial Infantojuvenil – Capsi, em Cianorte, pois a escola mostrou a demanda reprimida da população infantojuvenil que necessitava de acompanhamento especializado também na área da saúde mental e participou intensamente da luta. Havia no município alguns estudantes que necessitavam muito do atendimento e acompanhamento do equipamento de saúde mencionado. Em parceria com o Conselho Municipal da Criança e do Adolescente, o Ministério Público de Cianorte, sob a liderança da Promotora Doutora Elaine Lima, a Justiça determinou que o Município de Cianorte implantasse o Centro. Ele foi oficializado em Janeiro de 2016.



Maria Clara junto dos pais Jurandir Bernardino da Silva e Santina Morezzi da Silva, aos 20 anos. Hoje, ela tem 23 (Foto: Aida Franco de Lima)


“Estar incluído significa pertencer, estar junto, compartilhar, participar da sociedade e buscar um futuro sem separação. Para isso é preciso coragem, dedicação, respeito, perseverança, humildade e muito amor. É com esse testemunho que digo: essa inclusão é para toda a família. E a minha família agradece a todas essas pessoas tão especiais da comunidade escolar do Colégio Estadual Iglea Grollmann. Queremos que saibam que nos proporcionaram inúmeras alegrias, simplesmente por sentirmos parte de tudo, sem separação. Com todo o nosso carinho e respeito a todos”. Família da Maria Clara Morezzi da Silva.



A fala da professora Ana Floripes,

resume um pouco da trajetória:


“Há coisas na vida que não se repetem. São sempre como se fora a primeira vez. Ser Professora de Apoio Educacional Especializado de uma turma como a da Isaac Newton é um privilégio. Um sentimento imensurável. Durante seis anos vivemos muitas experiências positivas. As mesmas se misturaram e ao final não conseguíamos mais separá-las, tornaram-se unidade. Aos poucos fomos nos humanizando e para que isso acontecesse praticamos a justiça, a afetividade, a tolerância, a gentileza e o bom humor. A justiça foi praticada em vários momentos e seu ápice, com certeza: a mobilização para a implantação e implementação do Centro de Atenção Psicossocial Infantojuvenil – Capsi, de Cianorte e como parceiro principal o Ministério Público de Cianorte, sob a liderança da Doutora Elaine Lima. No ano de 2013 o projeto “Inclusão de estudantes com transtornos globais do desenvolvimento” ficou entre os dez melhores no Prêmio Victor Civita. Ele concorreu com mais de 2.500 projetos do Brasil. No ano de 2016 o projeto Identidade vs. Preconceito classificou-se em primeiro lugar no Prêmio Paratodos de Inclusão Escolar. Ou seja, o trabalho realizado a partir dessa turma foi reconhecido nacionalmente por duas vezes. Em 2018 o projeto conquistou o primeiro lugar na fase estadual no Prêmio Professores do Brasil, categoria Ensino Médio. Cabe mencionar que as atividades desenvolvidas no Projeto fazem parte do trabalho desenvolvido na capacitação do Programa Professor PDE e os desafios da Escola Pública Paranaense, ocorrida na Universidade Estadual de Maringá, nos anos de 2019 e 2010. Os estudantes participaram ativamente da vida uns dos outros, inclusive na da colega que sofria graves problemas na área da saúde mental. Ninguém ficou indiferente! A indiferença não tomou conta da situação. A experiência foi marcante! Sabe-se que só existem três maneiras de se transformar a sociedade: guerra, revolução e educação. Dentre as três, a Educação é a viável, porém os efeitos só se tornam visíveis em longo prazo. Assim a educação deve ter como finalidade a formação do homem para que este possa realizar as transformações sociais necessárias à sua humanização, buscando romper com o os sistemas que impedem seu livre desenvolvimento. Para os teóricos Duarte (2003) e Saviani (1997) o trabalho educativo produz nos indivíduos a humanidade, alcançando sua finalidade quando os indivíduos se apropriam dos elementos culturais necessários à sua humanização. O mundo precisa de exemplos, há muitos discursos descontextualizados de práticas.”





“O que dizer desta turma. Bom para quem não nos conhece, poderá olhar e pensar: uma turma comum com uma estudante com síndrome de Down. Mas garanto que essa turma não tem nada de normal. Ela me surpreendeu em vários momentos. Você vê uma garota com síndrome. Eu vejo uma colega de sala de aula. Nada foi impossível pois sempre trabalhamos juntos e conseguimos nossos objetivos. Hoje estamos nos formando no Ensino Médio.” Renan Lucas Bernardi (Foto: Divulgação)




“Desde que eu ingressei no Ensino Médio, participei de uma experiência gratificante que está concluindo um de seus capítulos agora. Aqui sempre foi visível o fator humano, sempre caminhamos juntos. Com as lições aprendidas e o afeto compartilhado nesses últimos anos, creio que nós nos tornamos 'humanos' ". Enzo Galego Todão (Foto: Divulgação)

“Foi incrível ter tido a oportunidade de conviver com a Maria Clara durante todos esses anos e ver o quanto ela se desenvolveu mesmo dentro das limitações dela. Muito gratificante! Uma história que mostra a importância da presença da inclusão e a diversidade em nossa vida.” Roberto Gumieiro Junior (Foto: Divulgação)

“Nossa turma é bem acolhedora, digo isso porque a minha chegada foi após o trabalho já estar sendo realizado, então participei do resultado. Vi também que a Maria Clara se sente incluída e é como se nós fôssemos a segunda família dela. Sinto-me grata por ter passado por essa turma e enxergar a diferença como uma coisa positiva que nos une. Portando, diante desse processo de aprendizagem o dia de hoje não é só uma formatura, mas sim mais uma etapa vencida com louvor”. Nayara Bueno (Foto: Divulgação)

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