Lições para recordar: Luan e seus amigos

Atualizado: 17 de Dez de 2020

*Por Ana Floripes - Professora


Hoje, 16 de dezembro de 2020. Quem diria! Nós aguardávamos esse final de ano com muitas expectativas. Tudo começou em fevereiro de 2014 quando recebemos um garotinho que não queria saber de prosa. Ademais ficava muito nervoso e chorava, principalmente quanto tinha que apagar algo que fazia errado. Às vezes, destruía as borrachas e só parou quando percebeu que elas “brotavam” em minha bolsa. Depois começou a morder os lápis, muita ansiedade, em pouco tempo ficavam pequenos e mesmo oferecendo novos, não aceitava, sempre dizia: “É preciso economizar. Vou usá-lo até o final.” Mas, em seu estojo sempre havia reserva. O problema é que a sua mão foi crescendo e o orientava sobre as consequências derivadas do esforço excessivo ao escrever com lápis “pitoco”. Ele continuava: “Tudo está muito caro, vou usá-lo até o final.” Muitas vezes, ficava em lugares estratégicos da sala e o chamava para ter a certeza de que estava prestando atenção às aulas. Entretanto, era necessário chamar os demais estudantes, pois ele não queria ser diferente de ninguém. Com o tempo tivemos que mostrar aos discentes a riqueza da diversidade em sala de aula. Tudo, em específico, para chegarmos ao momento de ele saber sobre seu diagnóstico. Foram vários anos de muito trabalho, aproximadamente cinco. Havia muita resistência. A turma sempre se ajudou. Todavia, a solidariedade é desenvolvida por meio da interação social.


Certa vez, ao me ver atender uma estudante com síndrome de Down, Luan devia ter uns 12 anos, perguntou-me: “Espere aí. Sempre a vejo junto contigo. Eu não tenho a síndrome de Down e você está sempre comigo, professora. Se bem que na nossa sala, a vejo atendendo aos meus amigos. Não sou diferente de ninguém.” Uma afirmação repleta de mensagens. Esses assuntos são melindrosos. Enquanto isso capacitávamos a turma sobre a diversidade e a riqueza proveniente de experiências sociais. Na atividade Projeto de Leitura, momento em que os estudantes e professores realizam a leitura silenciosa, eu estava lendo um livro específico sobre o Autismo e para minha surpresa, o estudante Matheus Moura, amigo que ocupou a carteira atrás do Luan por vários anos, me indagou sobre o mesmo e pediu para lê-lo. Eu disse: “Mas, o assunto é sobre o Autismo.” Ele só tinha 12 anos e me respondeu: “É bom lê-lo, assim poderei entender e ajudar meu amigo.” Eu o emprestei. Ele o “devorou” em poucos dias e discutiu o teor comigo, fez até comparação. Luan e Matheus permaneceram juntos até a segunda série do Ensino Médio, ano 2019, inclusive gravaram um vídeo muito importante sobre “Os direitos das Pessoas com Transtorno do Espectro Autista - TEA”, trabalho de Sociologia, orientado pelo Professor Lucas Monteiro.


São tantas lembranças maravilhosas. Daria um livro! O primeiro pastel comeu no Colégio, a sua alimentação ainda é bem seletiva. Eu comemorei quando ele disse: “Nossa! Pastel é gostoso. Quero outro.” No início, nas aulas de Educação Física, só queria jogar queimada. A Professora Rachel Pedro Bonfim com todo seu profissionalismo aos poucos conseguiu com que ele participasse de todas as atividades. Houve um dia que a turma de outra sala, a pedido do Professor José Carlos Bissari, o convidou para jogar queimada. Havia sido lançado o desafio: turma diferente e o jogo que mais gostava. Luan andava de um lado para outro e não entrava na quadra. Então, eu entrei. Corri um pouco e levei uma bolada, de propósito. Nesse momento, falei alto: “Se o Luan estivesse aqui eu não teria levado essa bolada. Ele é fera na queimada.” Foi o necessário. Entrou bravo na quadra, disse: “Você inventou de entrar na quadra, agora terei que ajudá-la?” Em pouco tempo, lá estava ele sorrindo e correndo muito para vencer o jogo.” Ainda tinha que conscientizá-lo de que perder ou ganhar fazia parte do jogo, pois não aceitava perder. Essa parte, contarei outro dia, pois levou-se alguns anos para aprender que perder faz parte. Não somente ele, como vários colegas de sala.


Ah! Foram anos correndo atrás dele. Ele gostava de pegar ripa de madeira e correr atrás da molecada, só para se divertir, principalmente na hora do recreio. Então, no início eu ficava plantão no pátio. Era comum chegar a notícia: “Professora Ana, venha rápido, porque o Luan está correndo e a molecada disparou correr.” Nessa hora, se tivesse de salto alto podia tirá-lo. Não sei como conseguia arrumar tantas ripas. No fundo, a garotada gostava da brincadeira. Ah! Sentirei saudades de vê-lo sentado na poltrona perto da secretaria lendo gibis e eu combinando estratégias para ajudá-lo a quebrar rotinas, inclusive de ouvi-lo: “Hoje tem avaliação, por favor, permaneça na sala de aula. Preciso me acalmar.” “Na outra escola me chamavam de Matusalém. Mas fiquei tranquilo, pesquisei. É o avô do Noé. Talvez, não tenham feito isso por preconceito, porque o bullying, resolvo é no braço.” Ele não esqueceu dessa parte. Fazia questão de citar a passagem quando o conteúdo se remetia ao preconceito. Um dos momentos mais especiais foi, sem sombra de dúvida, quando ele segurou meu queixo e falou: “Espere um pouco! Você está triste. O que houve?” Após, muito trabalho sobre o conteúdo expressão facial, repetiu a ação que eu costumava fazer não somente com ele, mas com a turma. Naquele dia, somente Luan conseguiu perceber minha tristeza, porque normalmente a escondo. Eu abri um sorriso e respondi: “Eu estava triste. Você está certo. Mas agora estou feliz porque você percebeu e identificou a tristeza em meu semblante.” Foi melhor ainda, queria saber o motivo. Ele iniciou o diálogo.


Enfim, tantas situações maravilhosas para recordar desde o ano letivo de 2014. As lembranças dos familiares, estudantes e profissionais da educação permanecerão. Os amigos do Colégio e são muitos, a maioria sempre colaborou com seus semelhantes. Ou seja, foram incluídos na vida uns dos outros. Com essa lição assimilamos que o respeito é o alicerce de tudo.


Infelizmente, não teremos a formatura e sentirei falta até da última foto que não foi possível tirarmos. Mas, desejo sucesso e que a saúde seja sempre companheira na próxima etapa.


Por fim, aprendemos muito com o Luan. Em compensação, Luan aprendeu muito com todos. Ele foi o precursor e após sua chegada, outros estudantes com o diagnóstico de TEA também chegaram ao Colégio.


Gratidão a esses sete anos consecutivos de muita aprendizagem.


Com Amor,


Professora Ana Flor


Obs.: homenagem ao terceirão Professor Antônio Graciano Trentin - 2020, do Colégio Estadual Igléa Grollmann - EFM, de Cianorte-PR.


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