Les temps sont durs pour les rêveurs

Antes eu gostava do abstrato, reler Clarice e discutir Foucault, antes poderia passar horas e horas com meus amigos na insustentável leveza de Ser.

Antes o riso era fácil, bobo, quase frouxo. O riso pelo riso, a gente pagava amor com amor.

Antes eu não sabia o que era taxa Selic, e não me importava quem era o ministro de relações exteriores.

Eu tinha grandes preocupações sim, não me leve a mal. A natureza da existência, a sociedade de classes, a vida além da morte.

Agora mal sei o que sobrou desse meu eu, agora só penso em queimadas no Pantanal, estouro de barragens, política internacional.

Agora é tudo concreto e cimento, morreremos de vírus ou nos faltará o ar? Será que mereço ser estuprada, senhor presidente? Só uma gripezinha você disse.

E daí? Não é coveiro.

Agora o arroz subiu e junto com ele a fome das crianças.

Quando fujo da dor da miséria me deparo com o genocídio do Povo Preto, e se olho pro lado vejo a pilha dos corpos das minhas irmãs assassinadas todo dia, todo dia, todo maldito e santo dia!

Corro e tento voltar, caio em mais um LGBT sangrando no corpo e na alma.

Não consigo ficar inerte e não consigo me mexer.

Paradoxal. Doloroso. Pós verdade.

Se já fomos felizes não me lembro, mas sei que nunca fomos tão tristes.

Deus é brasileiro e desistiu.


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