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Hermelina e Aparecido: não os obriguem a trocar um teto pelos cães. Eles vão 'preferir' as ruas

Atualizado: Jul 23

Aida Franco de Lima – Professora. Dr.ª e Mestre em Comunicação e Semiótica (PUC-SP), Jornalista e Especialista em Educação Patrimonial (UEPG - PR); Guia Especializada em Atrativos Turísticos Naturais (SENAC - EMBRATUR);Técnica em Vestuário (CEEP - PR); escritora (Série: Guardador de Palavras da Gabi).

Em 2014 quando encontrei com Dona Hermelina, pela primeira vez, com Tato e Negão e Aparecido com seus animais, em 2021 (Foto: Aida Franco de Lima e Elisabete Foganholo)


Era o ano de 2014. Eu estava passando na rua e vi uma senhora com dois cães que me chamaram a atenção. Um de pelagem preta, que brilhava. Outro de pelos claros, ambos bem cuidados. Mas ela... Tão magrinha, parecia tão frágil. Era dona Hermelina. Na verdade eu a confundi com outra senhora com as mesmas características físicas que até hoje deve andar de bicicleta pelas ruas, de Cianorte, em busca de latinhas. Parei o carro, fui falar com ela, já levando a máquina fotográfica... Na verdade eu fui saber dela se ela aceitaria doação de ração para os animais. E ela disse que sim. E quando perguntei seu endereço, meu coração partiu. “Eu moro na rua, fia”. Como assim ? Uma idosa, morando nas ruas ? Era fim de junho e aquele ventinho frio de junho passava por sua blusa fina e atingiu meu coração, mesmo muito bem agasalhada. Ela me contou que estava ‘morando’ ali pertinho da praça Raposo Tavares, em uma esquina. Na Zona 01 de Cianorte, uma idosa de 63 anos se protegia dentro de caixas de papelão... Eu não sabia como agir. Precisava fazer algo. Narrei sua história em um jornal local, cuja matéria não está mais disponível. Eu precisava que alguém mais a enxergasse.

Dona Hermelina, não era enxergada pela sociedade. Já tinha passado por algum programa assistencial, havia sido colocada em uma casa em que moravam mais pessoas indigentes, mas não deu certo morar no local com um monte de gente desconhecida que também não aceitava seus animais. E se o clima entre familiares nem sempre é dos melhores, o que dizer ir morar com desconhecidos, cada qual com seus hábitos e vícios? Hermelina só tinha mais uma opção, esconder-se de noite dentro de caixas de papelão, ladeada por seus dois fieis guardiões, Tato e Negão.


Site Olhar Animal também repercutiu a história de Hermelina e seus cães (Print: Redes sociais)


Quando compartilhei sua história no Face book e em um jornal local, que depois foi replicada em vários outros locais, aos poucos sua vida foi sendo contada por quem a conheceu em época que tinha um emprego fixo. Tinha sido trabalhadora doméstica, zeladora em uma empresa. Ela própria contou que tinha um único filho, mas ele também não levava uma vida fácil e mais uma vez, não tinha opção. Só lhe restou a rua. No dia seguinte à publicação, eu, a Simone Ziliane e mais uma voluntária fomos lhe procurar. A gente queria tirá-la das ruas, mas sem saber para onde levá-la e junto seus dois cães.


Quando fomos localizar Dona Hermelina para tirá-la das ruas. Rodamos o sábado o dia todo e nenhuma instituição a acolhia com os animais (Foto: Aida Franco de Lima)


Encontramos Dona Hermelina em uma das avenidas da Vila Operária. Aquela senhora que um dia também tinha sido operária, estava com dois sacos enormes em que carregava seus pertences. Ela que andava a pé por toda a cidade, entrou talvez pela primeira vez em muito tempo, em um carro. Não havia escolha, teve de ser na carroceria de uma pequena caminhoneta. Mas lá, cabiam ela, seus pertences e os cães! Rodamos aquela manhã inteira com ela no carro. O Albergue, que na época era aberto, só a recebia sem os cães, as pensões, as casas de campo de alguém conhecido, secretários municipais, líderes de associações beneficentes, amigos, colegas, ligamos para Deus e o mundo. Já tínhamos oferecido um lanche no lugar do almoço, já era noite e ainda não sabíamos para onde leva-la. Eu, uma jornalista, Simone, escrivã da Polícia. Não tivemos apoio de ninguém, de nenhuma assistente social, de nenhum político, prefeito, nada!

Já era noite, a última cartada foi ir até um bairro longe da cidade e contatar o único filho de Dona Hermelina. Ao menos naquela noite não dormiria em caixa de papelão. Ela dentro da pequena casa e Tato e Negão em uma casinha recebida através de doação. Foi formada uma corrente de solidariedade e muitas pessoas queriam doar roupas, comida e objetos para ela. Mas precisávamos tirá-la em breve dali. Então as coisas, nos dias seguintes, começaram a acontecer. Simone conseguiu uma pequena casa, que era de seu pai e estava sendo desocupada, para abrigá-la. Pronto, Dona Hermelina já tinha um teto!


Quando a sua pequena mudança foi levada até sua nova moradia (Foto: Aida Franco de Lima)


Conseguimos que um caminhão do Município fosse buscar seus pertences. Eu não tinha conhecimento, mas descobrimos que Dona Hermelina era uma acumuladora de objetos. Um caminhão cheio de coisas descartáveis chegou para seu novo lar... Tudo o que imaginarem, desde sacola de plástico rasgada a pedaços de brinquedos. Mas havíamos conseguido mesa, cadeira, fogão. E no espaço, muito simples ela tinha o que mais sonhava. Um teto para abrigar-se, com o mínimo de conforto, juntamente com seus fieis escudeiros.



Reparem que os cães não largavam um minuto. Aqui, logo depois que trocou a caixa de papelão por um teto (Foto: Aida Franco de Lima)

Na casinha na Rua Grajaú, dona Hermelina finalmente conseguiu abrigar-se junto com seus animais (Foto: Aida Franco de Lima)



Matéria em jornal em que a sua nova história passou a ser narrada (Foto: Aida Franco de Lima)


Hermelina não podia receber o Benefício Social pois ainda não tinha 65 anos. Mas sua história já estava ganhando novas páginas. Ela conseguiu contrato na Frente de Trabalho, programa de inclusão que pagava um salário mínimo a trabalhadores através de contrato temporário pelo Município, e estava trabalhando na zeladoria da UEM. Tinha sido cadastrada no programa Minha Casa Minha Vida e um belo dia me chamou contente na sala dos professores e me mostrou com orgulho o comprovante de pagamento da primeira prestação.


No campus da UEM, eu era professora e D. Hermelina auxiliava na limpeza e me contou com alegria que foi pagar sua parcela do financiamento de sua casa do Minha Casa Minha Vida (Foto: Aida Franco de Lima)


Depois disso, quando venceu o contrato na Frente de Trabalho (que era para servir justamente a pessoas em estado de vulnerabilidade e pelo visto houve quem não precisasse aproveitando-se desse dispositivo) ela precisou de ajuda da comunidade para não passar fome no período que ficou acamada.


Quando as redes sociais foram usadas, novamente, para solicitar ajuda para Hermelina (Foto: Aida Franco de Lima)


Passado mais um tempo eu a encontrei na rua, veio toda feliz para meu lado. Não sabia falar meu nome, em vez de Aida, falava Aldea... Me contou que Negão e Tato tinham morrido, me falou a data certinha de cada um deles, como uma mãe que narra não esquece a partida dos filhos. E também contou que tinha deixado dois filhotes na frente da casa dela e que tinha acolhido.

Mesmo com o benefício social, ela ainda catava latinhas, andava com um olhar distante, mas ao mesmo tempo abria um grande sorriso, como foi quando nos encontramos. Não tive mais notícias dela...

E hoje, veio um déjà vu com a história contada pela Elizabete Foganholo, que narrou a história do Aparecido Martins, que assim como dona Hermelina vive nas ruas com a companhia dos cães.

Nas imagens abaixo Aparecido Martins e seus fieis escudeiros, fotos de Elizabete Foganholo, 18 de julho de 2021, nada mudou...

É importante que as pessoas saibam que quem vive nessas condições não vai trocar um teto por seus animais. Eles não vão largar seus animais porque propor essa condição é algo que para eles é inegociável. Portanto, passou da hora de o 'sistema' que em algum momento foi negligente burocrata, deixar a burocracia em uma gaveta e voltar-se para a realidade. A realidade dessas pessoas, muitas com transtorno mental não cabe nas normas de um abrigo que condiciona a entrada de pessoas sem animais. Também não condiz com instituições em que as regras são mais frias que os meses de inverno. Apenas deslocar pessoas nas condições de dona Hermelina ou de Aparecido em uma casa para conviver com muitos outros desconhecidos, cada qual com suas tempestades mentais também não alivia a situação.

Em muitas cidades os abrigos adequam suas normas para acolher pessoas em situação de rua e seus animais. De que adianta as pessoas acharem lindo e maravilhoso quando a mídia narra histórias de animais que não abandonam seus tutores, e ficam por dias e anos em portas de hospitais e cemitérios, se a mesma sociedade não é capaz de abrigá-los quando os tutores precisam escolher entre eles ou as ruas? Aliás, em São Paulo isso já virou Lei!

Hermelinas, Aparecidos. Quem nunca os abandonou foram os animais, muitos deles desabrigados por pessoas que certamente estão no conforto de seus tetos. As prefeituras, as câmaras, as entidades de serviço sociais, as instituições filantrópicas precisam de um novo olhar para as Hermelinas e Aparecidos, os Negões, os Tatos... Precisamos de políticas públicas, pois os prefeitos, os vereadores, entre outros, eles passam, e os problemas permanecem. Essas pessoas precisam de abrigos individuais, acompanhamento psicológico e desejam ser feliz a seus modos, seja catando latinhas, vendendo reciclável, e na companhia dos animais. É preciso também cuidar para que a sociedade não se aproveite desse apego com os bichos para 'empurrar' animais para eles! Já há um advogado disposto a requerer na Justiça auxílio financeiro, caso haja laudo médico comprovando que o Aparecido enquadre-se no que é de direito em casos similares. Mas é importante ressaltar que se alguma medida efetiva tivesse sido adotada em 2014 hoje teríamos outra realidade. Mas ainda está em tempo de mudá-la, antes que as temperaturas caiam ainda mais ou até que daqui uns dias essas histórias caiam no esquecimento.

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