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"Ei, menino: você é autista? Você é boiola?"...

Por Ana Floripes - Professora



Fonte: https://escolaeducacao.com.br/texto-sobre-preconceito/



Quantas vezes você já escutou ou pronunciou uma frase ou uma piada em que só uma parte da história se diverte enquanto a outra sofre? Quantos adultos experimentam os traumas vivenciados na infância? Seja na questão da identidade de gênero, autismo ou demais deficiências, altas habilidades, transtornos mentais, etc. O assunto precisa ser trazido a público, cada vez mais.


O discurso da inclusão e exclusão tem se intensificado no campo educacional. A exclusão vem sendo colocada como a grande vilã em contraponto à inclusão e esta tida como a solução para os problemas dos excluídos.


Após tantos anos ouvindo frases sobre exclusão e inclusão e observar o cenário em que são pronunciadas, aprendi que elas falam muito mais dos preconceitos e dos conceitos de quem as pronunciam do que de seus conceitos contidos nos dicionários. Ademais, a meu ver, muitas vezes, soam como justificativa, para manter ou superar sentimentos sobre nossa limitação quanto à nossa aceitação ou a de outros. Seguem algumas delas:


- A sociedade não está preparada para esse desafio.

- Não estamos preparados para ser pais de bebês com deficiência.

- A presença de estudantes com deficiência na mesma sala de meu filho, atrasará o desenvolvimento dele.

- Falta capacitação para todos, mas poucos vão estudar.

- Vou lutar pelo meu filho. Os outros pais que lutem pelo deles.

- Nossos filhos com Autismo têm comorbidades, então não tem como incluir outras deficiências nessa luta.

- Escolhemos esse modelo de atendimento, quem quiser outro que lute mais.

- Eu gostaria de matricular minha filha na sala que tem estudante com deficiência, quero que aprenda desde cedo a respeitar a diversidade.

- Não somos preparados para atender pessoas com deficiência, nos órgãos públicos e nem nos privados.

- É preciso melhorar os atendimentos dos cidadãos, inclusive dos que têm deficiência;

- Agora temos as leis e os direitos estão garantidos, mas como torná-los efetivos?

- Diante do quadro de exclusões individual e coletiva que vivenciamos internamente e externamente, consequentemente dificultamos a nossa existência e a do próximo.

- Não aceitamos o diagnóstico dado por três médicos. Vamos procurar outros.

- Fechou o diagnóstico, mas nossa família não aceita e não queremos que outras pessoas saibam.

- Eu demorei para aceitar a condição de meu filho, mas se existem leis, a escola não pode discriminar.

- Nossa! Não tem cara de Autista, se não me fala, nem teria percebido.

- Meu filho sofrerá discriminação, até eu antes de ele nascer, discriminava.

- Nossos estudantes são maravilhosos. É preciso romper com os pré-conceitos por meio do conhecimento científico.

- Na hora do nascimento perguntei ao médico: “É perfeito”. Tinha medo de ter deficiência.

- Professora, tome providência porque aquele menino horroroso xingou minha filha de quatro olhos.

- Não quero que minha filha ande com fulana de tal, porque a mãe dela é vagabunda.

- A professora X teve que explicar três vezes para a criança com deficiência, enquanto meu filho teve que esperar.

- Eu odeio minha deficiência.

- Ei, menino, você é boiola?

- Ei, menina, quer saber mais que o professor?

- Ei, moleque, você é louco?

- Aquela garota é mongoloide!

- Larga mão de ser autista, seu doido.

- Ei, moça, você é sapatona?

- Você é retardado, idiota, imbecil, burro, cretino, por isso não aprende...


Percebe-se que, se formos esmiuçar os significados implícitos e explícitos em cada frase, daria uma tese. Poderia escrever inúmeras, todavia, as escolhidas servem para exemplificar sobre a trama.


Observa-se também nos estudos de modo geral que a imagem que as pessoas em situação de deficiência e/ou transtornos mentais, altas habilidades, etc., têm de si está vinculada à percepção que as outras pessoas têm dela. Ou seja, o preconceito atua como inibidor da autopercepção e aniquilador de identidade.


Tal como aponta Bartholo (2007), o preconceito supõe um saber prévio e independente a qualquer escuta interpessoal e inviabiliza qualquer possibilidade de diálogo com o outro em sua inteireza e contribui para a negação da alteridade da pessoa que é submetida ao ato do preconceito.


Durante muitos anos pesquisando sobre comportamentos inadequados, por meio de sentimento de superioridade, de estudantes que não respeitam as identidades alheias, percebi que reproduzem o aprendizado social. E, quando, os estudantes que, em dado momento se encontram em desvantagem, e se enxergam como inferiores, ao superarem a fase, com apoio, alguns deles se comportam exatamente como àqueles que lhes fizeram sentir inferiores.


Goffman (1982, p.15) salienta que as nossas pré-concepções estruturam o que imaginamos do outro, que diante de uma pessoa com um estigma a definimos como parcialmente humana. Segundo o autor, uma forma de camuflar a nossa percepção do estigmatizado é utilizar subterfúgios apontando outras diferenças. Assim, construímos uma teoria do estigma, uma ideologia para explicar a sua inferioridade e sem dar conta do perigo que ela representa, racionalizando algumas vezes a nossa animosidade baseada em outras diferenças, tais como as de classe social.


Com relação às lutas no campo dos direitos, no ano de 2002 quando tive a oportunidade de conversar com o Gaudêncio Frigotto, após ler a sua tese “A produtividade da escola improdutiva”, ele sinalizou que a forma como as lutas fracionadas ocorriam interferia diretamente nos resultados pretendidos. Ou seja, a maioria da luta pela “inclusão” aconteceu e ainda acontece no campo segregado/separado, como por exemplo nas áreas: racial, surdez, visual, física neuromotora, física, intelectual, autismo, altas habilidades, transtornos mentais, entre tantas outras.


Nesse contexto, a exclusão e a inclusão tornam-se palavras de fundo e têm servido para nos apontar, por meio de discursos, o quanto cada uma delas é utilizada e, na maioria das vezes, em minha vivência, de forma egocêntrica, pois o objetivo é a satisfação pessoal em momentos oportunos. Muitos de nós, nascemos e convivemos na cultura excludente e para praticarmos a cultura da inclusão é necessário ultrapassarmos as barreiras de aprendizagem e de aceitação. Daí já é outro assunto.


Na luta pelo processo de inclusão, também somos excluídos por grande parte das pessoas que, ao invés de melhorar o Sistema, no sentido de incluir, o justifica com a eterna frase: “A sociedade não está preparada”. É fato que, para muitas, a saída da zona de conforto só acontece com a chegada de familiares em seus meios. Às vezes, nem assim...


É preciso muita persistência para que os direitos sejam legitimados, de fato! O ser aceito, é outro estágio!


Nas próximas publicações trarei a importância da Educação Inclusiva para o enfrentamento dos desafios impostos culturalmente por meio das limitações conceituais: Identidade vs. Preconceito. As Políticas Públicas efetivas são extremamente necessárias!



Referências


GOFFMAN, E. Estigma: notas sobre a manipulação da identidade deteriorada. 4. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1982.


TUNES, E. Preconceito, inclusão e deficiência – o preconceito no limiar da deficiência. Em TUNES & BARTHOLO (Orgs). Nos limites da Ação, Preconceito, Inclusão e Deficiência. São Carlos: EDUFSCAR, 2007.

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