Duas Cianorte: dos cães mortos dentro do tambor e a do prefeito eleito que visita o canil

Atualizado: Fev 13

Aida Franco de Lima – Professora universitária há 20 anos. Dr.ª e Mestre em Comunicação e Semiótica (PUC-SP), Jornalista e Especialista em Educação Patrimonial (UEPG - PR); Guia Especializada em Atrativos Turísticos Naturais (SENAC - EMBRATUR);Técnica em Vestuário (CEEP - PR); escritora (Série: Guardador de Palavras da Gabi).


Hoje uma imagem do novo prefeito eleito de Cianorte, Marco Franzato, me chamou a atenção em sua rede social. Ele esteve visitando o canil e escreveu dessa forma: “Visitei o Canil Municipal e fiquei triste com tudo o que eu vi. Precisamos investir com urgência no espaço e em pessoas. Nossos animais precisam de mais cuidado. Vamos ter olhar diferenciado e com muito carinho. Nossa gestão vai dar total atenção ao bem-estar animal. Tamo junto!”.


O prefeito eleito, Marco Franzato, visitando o canil em Cianorte (Foto: Divulgação)


Com o texto, ele postou algumas fotos. Em uma delas, imagens de cachorros com olhar triste junto à tela de sua baia. E uma imagem muito antiga, que muita gente que vai ler esse texto nem era nascida, me veio à memória. Era de cachorros que no ano de 1992 estavam aprisionados em um canil improvisados no antigo lixão, hoje Parque Mandhuy. Se o prefeito eleito, que em breve será empossado no cargo, ficou com dó dos animais do canil, a administração daquela época não teve dó nenhuma em exterminar centenas de animais, com requinte de crueldade.


Cachorro lançado na 'câmara de gás' em Cianorte, em 1992 (Foto: Arquivo pessoal)


Quem é daquela época lembra como se fosse hoje... Os animais eram encurralados pela carrocinha, muitos deles com lacinhos no pescoço, sinal que podiam sim ter um lar, e eram levados para o canil improvisado. Se em um prazo mínimo ninguém os procurasse, eram mortos. Uma caminhoneta velha era ligada, a fumaça tóxica do combustível que saía pelo escapamento era encanada para dentro de um latão. Os cachorros eram jogados lá dentro, a tampa fechada e a agonia começava. Isso sob o olhar atento de funcionários da Vigilância Sanitária.


Protesto que realizei junto com meus amigos contra o extermínio de cães em Cianorte (Foto: Arquivo pessoal)



Funcionários da Vigilância Sanitária observam os trabalhos (Foto: Arquivo pessoal)



Todos mortos (Foto: Arquivo pessoal)


Nunca mais me esqueci dessas cenas (Foto: Arquivo pessoal)


Esse era o tratamento dado aos animais em Cianorte, no ano de 1992 (Foto: Arquivo pessoal)



Todos os animais foram mortos dentro do tambor, sob o aval da Vigilância Sanitária (Foto: Arquivo pessoal)



Nem os filhotinhos ou com sinais de que tinham lar eram poupados (Foto: Arquivo pessoal)


Eu e uns amigos fomos ao local, com cartazes, protestamos do nosso jeito. Não havia rede social. Denunciei tamanha crueldade na Folha de Londrina, que publicou foto como uma das manchetes principais e a repetidora da Rede Globo divulgou em todo o Paraná. Na hora do almoço a Prefeitura comunicou que a carrocinha havia sido exterminada, não sem antes matar todos os animais que lá estavam. Há poucos anos conversei com funcionários públicos que eram obrigados a fazer o serviço. Eles me contaram que terminavam de matar os cães à pauladas. Eram cães novos, velhos, filhotes e até prenhes. A solução encontrada foi exterminar. Eu nunca vou me esquecer do que vi naquele lixão. Eu nunca vou compreender a maldade do ser humano.


Matéria de meia página, interna, na Folha de Londrina de 09 de Março de 1992 (Foto: Arquivo pessoal)


De lá para cá, muita coisa mudou, mas não porque a administração municipal ficou boazinha. Foi porque eu e meus amigos mobilizamos uma parcela da sociedade e conseguimos que as leis passassem a ser respeitadas e outras sancionadas. Em 2013 ainda houve tentativa de reativar a famigerada carrocinha, mas já estávamos em época de redes sociais, a pressão foi grande e a administração recuou. Ainda há muito a ser feito, mas já considero um passo importante o prefeito eleito ir ao canil e ficar triste com o que viu, pois sendo ele o dono da caneta, poderá fazer muito por eles. Se no passado os animais tivessem tido o mínimo de respeito, hoje esse texto não precisaria ter sido escrito. Mas é fundamental registrar os fatos e lembrar que devemos ser a voz dos animais e das minorias. Afinal, se não falarmos por eles, quem o fará?


Por ter denunciado a carrocinha em Cianorte eu fui demitida de meu primeiro emprego, porque a prefeitura 'pediu minha cabeça'. E quando terminei meu TCC – Trabalho de Conclusão de Curso, agradeci a esse meu primeiro patrão, pela minha primeira demissão. Não fosse ele, eu não teria feito minha graduação em Jornalismo, porque eu poderia ter me acomodado. Até rimou, mas nem era essa a intenção. Não tem rima nenhuma que combina com crueldade aos animais ou qualquer outro ser vivo. É muito dolorido lembrar disso tudo, mas ao mesmo tempo é muito gratificante não ter sido conivente com tamanha crueldade. Que venham novos 'ares' para os animais, e que jamais volte a ser impregnado de monóxido de carbono.



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