Doria, Bolsonaro e o fim de feira

Atualizado: Jan 19

Aida Franco de Lima – Professora universitária. Dr.ª e Mestre em Comunicação e Semiótica (PUC-SP), Jornalista e Especialista em Educação Patrimonial (UEPG - PR); Guia Especializada em Atrativos Turísticos Naturais (SENAC - EMBRATUR);Técnica em Vestuário (CEEP - PR); escritora (Série: Guardador de Palavras da Gabi).

O Brasil está no fim da fila do final de feira (Foto: Armazém do texto)

Você já foi no começo de uma feira? Mercadorias bonitas, você tem as melhores opções e os preços são equilibrados. Já foi ao final? Sobras de mercadorias, muitas estão até na promoção. Mas nem sempre o desconto vale a pena, pois os produtos já não são tão atraentes. O processo de compra de vacinas para o Brasil deixou nosso País em situação de fim de feira, mas com um agravante: com oferta de produtos muito reduzida e preços longe dos promocionais.


Os países mais desenvolvidos foram precavidos. Mesmo em locais cujos líderes eram negacionistas, como no caso do primeiro ministro do Reino Unido, Boris Johnson, a vacina foi tratada com a prioridade que merece. Para quem não se lembra, Johnson só deu a real importância para a gravidade do coronavírus, depois que adoeceu gravemente. Tão agradecido, batizou seu filho com os nomes dos médicos que o atenderam, por sinal, de origem estrangeira. Quanto mais ampliar o processo de vacinação de sua população, que teve início em 8 de dezembro, maior a possibilidade de reverter o terceiro confinamento do País. Reino Unido e mais de 50 outros países que avançam na vacinação em massa chegaram no início da feira. Compraram lotes de vacinas que ainda não estavam aprovadas. Mas que valia o investimento, pois sabiam que a partir do momento que as agências de saúde mundiais dessem a largada, restariam poucas opções de compra. Que quanto mais rápido vacinassem seus povos, mas fôlego garantiriam às economias.


No Brasil, a coisa foi muito diferente. O governador de São Paulo, João Doria, que em 2018 fez a dupla Bolsodoria, depois da tentativa frustrada de privatizar o Instituto Butantan viu que ali estava a galinha de ovos de ouro. Uma instituição que seria capaz de fazer uma parceria com laboratório chinês, trocar tecnologia e fabricar aqui mesmo no Brasil uma vacina capaz de frear a pandemia. Doria, cujo pai de tão bom marqueteiro que era inventou o Dia dos Namorados, não iria ficar atrás em seu trabalho de marketing. A cada lote de vacinas Coronavac, que chegava do outro lado do mundo, lá estava Doria no aeroporto vendendo seu peixe. Em seu carrinho de feira, Doria juntou 6 milhões de doses.


Na outra ponta, ficou o Ministério da Saúde sob o pensamento negacionista do presidente Bolsonaro, que inclusive desautorizou contrato que garantiria ao Brasil a compra de 46 milhões de doses de vacina, em 21 de outubro, do laboratório chinês Sinovac, desdenhando da mesma. A Coronavac ganhou apelido de ‘vachina’, vacina do Doria, vacina chinesa. Virou até meme, depois que Bolsonaro sugeriu reação adversa que poderiam levar as pessoas vacinadas a virar jacaré. O brasileiro, é claro, colocou sua fábrica de memes em ação.


E uma disputa foi travada ao longo desse tempo. De um lado, Doria, apostando todas suas fichas na #Coronavac, a vacina do #Butantan. Em outro, Bolsonaro, que em último caso aceitava a vacina não comunista, a de #Oxford. Essa última, que será produzida pela #Fiocruz, outra entidade estatal, com insumos importados da Ásia. No seu carrinho de feira, Bolsonaro juntou 2 milhões de doses da vacina, porém, era um carrinho imaginário. Visto que o feirante ainda não tinha entregue a mercadoria! Adesivou avião, comunicou todo mundo que buscaria as vacinas, mas pegaria muito mal par a Índia entregar vacinas para o Brasil, se ela nem tinha começado a vacinar seu povo. O avião da Azul, que era para decolar dia 15, nem saiu do espaço aéreo brasileiro.


Nesse domingo (17), um verdadeiro reality show foi realizado enquanto a #Anvisa, a agência responsável votou por liberar o uso emergencial de ambas as vacinas no Brasil. Doria, que não é bobo nem nada, já tinha tudo pronto para garantir a primeira imagem que marcou a história contemporânea e as futuras: #Monica #Calazans, a primeira mulher vacinada contra a Covid-19 no Brasil. Somente no dia seguinte (18) teve início a distribuição no restante do País. As doses são do carrinho do Doria. Ele não só chegou no início da feira, como comprou e vendeu seu peixe muito bem. Cabe ao presidente, através do Ministério da Saúde, correr atrás do prejuízo. Somente na segunda (18) Bolsonaro comentou o acontecimento histórico. Mas em vez de comemorar, falou em tom de lamento. Desdenhou do carrinho do Doria, mas não cuidou do seu. Lembrando, que de seu carrinho depende a saúde do brasileiro que não tem direito nem mesmo ao final de feira, porque está perdido no mato sem cachorro.

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