Diagnóstico tardio é o principal obstáculo ao desenvolvimento de pessoas com autismo

Atualizado: Fev 23


Por Ana Floripes - Professora



O transtorno do espectro autista (TEA) manifesta antes dos três anos e afeta as áreas da interação social, comunicação e comportamento restrito e repetitivo. O diagnóstico precoce e a aplicação de intervenções terapêuticas são imprescindíveis para a reabilitação global e a promoção de qualidade de vida. Levando-se em conta que, é um transtorno novo com relação às pesquisas e a tendência dos estudos é com foco na infância, ademais não há estudos em nossa região sobre números de pessoas com autismo, bem como, faltam informações relativas às pessoas adultas diagnosticadas tardiamente e também sobre as que têm indicativos e que provavelmente nunca serão diagnosticadas por falta de equipe multidisciplinar especializada. Faz-se necessário muito trabalho de conscientização, pois sabe-se que o TEA possuem as mais fortes evidências de terem bases genéticas.

Anos atrás, devido as minhas publicações sobre o conteúdo do Autismo nas Redes Sociais, muitas pessoas adultas me abordaram por se identificarem com os sinais apresentados sobre o TEA. Eu recebi vários relatos e pedidos de ajuda. Hoje, com a permissão da pessoa, publicarei excertos de sua trajetória na escola. Ela registrou várias etapas, desde a educação infantil até a terceira série do ensino médio. Fiz alguns recortes, me emocionei em muitas passagens.

A pessoa autora do texto abaixo, recentemente, procurou atendimento, mas não teve nenhum diagnóstico, até o momento. Ele entrou em contato comigo e só quer uma coisa: contribuir com o tema, pois, 02 de abril – Dia Mundial da Conscientização do Autismo está chegando. É necessário conhecer para minimizar preconceito.


Dessa forma, sugerimos à Câmara Municipal e Prefeitura Municipal de Cianorte-PR, que organizem um trabalho no município com o objetivo de disseminar informação sobre o Transtorno do Espectro Autista. Precisamos avançar quanto ao conhecimento científico para a implementação de Políticas Públicas.

Segue, parte do relato:


"Desde aproximadamente os quatro anos de idade já tinha insônia, e isto me acompanha, até os dias de hoje. Em 1981 mudei para um bairro novo, um conjunto habitacional, e com seis anos minha mãe me ensinou a fazer alguns traços no caderno. Ela dizia que era bom eu aprender fazer estes risquinhos, quadradinhos e bolinhas em um caderno, antes de ir pra escola. Acredito que deveria ter visto isso nos cadernos de meu irmão mais velho que já estudava. Não havia escola neste bairro por ser novo, mas haviam separado umas casas para ser uma escola improvisada. Estas casas foram adaptadas e cada uma era uma sala de aula, a última era secretaria e cozinha onde faziam a merenda. A professora chamava Clara, uma senhora já com certa idade. No primeiro dia de aula minha mãe me levou, mas depois que ela foi embora eu fiquei perdido, pra mim foi uma grande confusão e eu chorei.


Eu fui colocado em uma carteira no meio da sala, mas logo fui para o fundo, onde me sentia melhor. O que mais me recordo neste período, são algumas confusões que me envolvi.


Certa vez eu bati em um menino que me irritava, ele mexia comigo por algum motivo e um dia fiquei muito nervoso e bati nele, mas depois eu chorei mais do que ele por ter me arrependido ou por medo, não sei. Mas hoje identifico, naquele dia entrei em crise. Em outra ocasião estávamos fazendo pintura de um desenho e tivemos que sair para o intervalo. Na volta umas meninas disseram que um colega tinha roubado um lápis vermelho que era meu. Mas parecia que era mentira e fizeram uma confusão me envolvendo. Eu era muito inocente e não sabia em quem acreditar.


Outra situação complicada foi em relação à merenda. Nesta escola era servida uma sopa, porém eu não conseguia comer. Por ser uma escola improvisada, cada aluno deveria levar um prato e uma colher, eu levei também. No primeiro dia eu tentei comer, mas em casa eu falei pra minha mãe que não tinha gostado, daí ela ficou muito brava comigo e eu não entendia o porquê. Por fim ela pediu o prato e colher de volta. Por toda minha vida escolar, nunca mais eu comi merenda da escola. Minha mãe mandava alguns pães de merenda para eu comer, mas as crianças ficavam pedindo um pedaço e eu me sentia incomodado. Uma vez um menino pediu um pedaço eu dei e ele cuspiu. Depois, por fim, eu não quis mais levar lanche.


Nesta época eu brincava bastante com meus irmãos, gostava de brinquedos bem pequenos. Existiam uns caminhõezinhos que eram vendidos na feira, coloridos, a cabine era de uma cor, a carroceria de outra. Eu desmontava as peças coloridas e montava diferente, cada um de uma cor, então ficava um caminhão todo azul, outro todo amarelo etc. Uma observação, minha mãe guardou os primeiros cadernos dos meus irmãos, menos o meu, eu perguntei o porquê. Ela não soube dizer.


Em outra ocasião eu estava prestando atenção na professora e este menino bagunceiro, que já mencionei, sentava-se atrás de mim, ele ficava batendo em meu ombro e chamando minha atenção, mas eu evitava e empurrava a mão dele pra que não tocasse em mim, então a professora parou a aula e elogiou minha atitude diante de todos. Disse que tinha gostado de ver eu evitando a conversa pra prestar atenção na aula. Neste momento do elogio eu fiquei muito nervoso e chorei.


Uma vez voltando da escola havia um boi enorme deitado no meio da estrada, eu não sabia o que fazer, senti muito medo e fiquei paralisado, então fiquei chorando até que minha mãe apareceu depois de algum tempo. Ela foi levar meus irmãos no ponto, pois estudavam à tarde, então passou com eles pelo boi e depois voltou comigo e passamos juntos, mais uma vez ela ficou muito brava comigo. Aliás ela sempre ficava muito brava comigo quando alguma coisa dava errado e sempre me batia muito também. Me lembro que apanhei até os 14 anos de idade.


Neste ano eu tive aulas de educação física, mas eu não gostava de participar. Me lembro das crianças fazendo fila para as atividades e eu saia e ficava sentado nos bancos. As professoras insistiam pra eu fazer, mas eu ficava muito incomodado e chorava.


Todos os dias chegávamos cedo e eu ficava em um canto da escola, perto da entrada do corredor das salas, ali eu ficava encostado na parede o tempo todo, até esperar o sinal pra entrar na sala. Eu não conversava com ninguém e ninguém ia falar comigo (esta foi minha rotina pelos cinco anos que estudei nesta escola). Eu via as outras crianças brincando no pátio e eu não gostava de ir lá. Uma vez eu fui tentar correr no pátio mas tropecei nos meus cadarços que sempre ficavam mal amarrados, caí, tinha muitas crianças e todos riram de mim, depois disso nunca mais tentei correr no pátio. Me lembro que não amarrava meus tênis. Eu enfiava os cadarços do lado entre o tênis e a meia. Minha mãe, uma vez comprou um tênis pra mim que vinha com dispositivo pra enrolar o cadarço. Uma observação: até hoje tenho dificuldades com nós. Eu sempre uso para amarrar minhas peças de trabalho para transporte, porém, as cordas sempre se afrouxam, tentei aprender fazer o nó carioca, o mais usado para amarrar cargas, mas não consegui.


Tive dificuldades de aprendizado, sentava no fundo da sala e as crianças da frente sempre faziam muita bagunça e eu não conseguia prestar atenção na aula. Minha letra era muito feia. A matéria que eu mais gostava era Educação Artística e Ciências. Na escola me lembro que um dia eu fiquei muito triste por não conseguir fazer uma letra melhor. Até chorava por causa disto.


Nas brincadeiras com meus irmãos fazia estilingue, arco e flecha, pipas, fazia também pistas de corrida com mini cidades com lava-jato. Eu fazia carrinhos com latas, gostava de fazer as latas girarem em eixos de arame e madeira.


Nas brincadeiras eu gostava de fazer cata-ventos, ficava fascinado com o movimento das peças geradas pelo vento. Eu fazia os cata-ventos com caixas de pasta de dente e bambu.


Neste sítio havia um riozinho, eu também fazia rodas d’água de bambu e plástico. Eu gostava de ver o movimento que a água fazia nas pás da roda.


Nesta cidade em muitos dias fazia frio de manhã e depois esquentava. Nestes dias, sempre ia com uma jaqueta, mas quando esquentava eu não tirava a blusa, as outras crianças riam de mim.


No final deste ano meu irmão mais velho se formou na 8ª série e meus pais foram com ele na formatura, quando chegaram em casa uma surpresa: minha mãe trouxe um diploma de honra ao mérito pra mim, eu havia sido o melhor aluno da 6ª serie.


Como eu não gostava de descer para o pátio na hora do intervalo, eu gostava de frequentar a biblioteca. Amava ver livros de ciências e ficava fascinado com as experiências que eram propostas. Tentava fazer algumas e eu colecionava sucata de fios, arames, pedaços, de lanternas e pilhas e fazia diversas experiências propostas nos livros. Nesta época comecei a desenhar, usando técnicas que aprendia na escola. Lembro que fiz o desenho de um personagem de TV. Eu achei o máximo e continuei fazendo outros desenhos.


Eu me lembro de um comentário de uma professora de português, ela disse em uma ocasião que se ela tivesse a idade dos alunos daquela sala, ela teria amizade com todos os alunos, menos comigo, pois eu era muito fechado. Eu sentava no fundo da sala e conversava muito pouco. No horário de intervalo eu frequentava a biblioteca.


No final do ano foi organizado uma formatura do ensino fundamental. Participei, fiquei muito nervoso, como sempre. Fizeram um almoço. Eu fui, mas me lembro que fiquei muito incomodado. Tive dificuldade em confraternizar com os colegas. Eu ficava mais quieto não conseguia conversar.


No ensino médio gostava de desenhar e um menino no ônibus se aproximou de mim. Me mostrou um gibi de histórias em quadrinho, com super-heróis e mundos fantásticos. Comecei a desenvolver meus desenhos e o gosto pela leitura, a escrever histórias de ficção. Depois de algum tempo, em 1993, até escrevi uma carta para a Editora Abril com uma de minhas histórias e me responderam elogiando minha escrita, esta editora publicava meu gibi preferido, a Espada Selvagem de Conan (ESC).


Este ano eu fiquei gostando de uma menina. Escrevi uma poesia pra ela. A moça ficou encantada me agradeceu, mas não quis nada comigo. Passei a ter aulas de filosofia, e o professor incentivava muito a leitura. Comecei a fazer leituras paralelas aos temas sugeridos na escola. Lia livros sobre poderes da mente e do subconsciente. Continuei fazendo desenhos.


Por morar na cidade eu tive que fazer Educação Física, eu estudava a tarde e as aulas eram de manhã e eu não ia... Porém eu estava quase reprovando por faltas e fui obrigado a participar. Me lembro que eu não gostava de fazer atividades físicas pois não conseguia me entrosar com os demais colegas, eu era muito desengonçado e fazia os movimentos errados, não tinha muita coordenação, então eu era evitado e excluído.


Eu queria trabalhar e no meio do ano passei a estudar à noite. Mas nunca arrumei emprego. Estudei em uma escola antiga e muito visada por alunos da classe média. Pois o ensino era bom. Eu consegui vaga por morar perto desta escola.


Na terceira série do Ensino Médio, na nova escola, os alunos eram muito entrosados eles estudavam juntos há muito tempo. Algumas meninas tentaram se aproximar, fazer amizade mas eu era muito fechado não conseguia me relacionar... Por causa disso em pouco tempo começaram me evitar. Sentia isso até dos professores. As aulas de Educação Física eram no mesmo período entre as demais matérias, eu tinha que fazer porém tinha muitas dificuldades por continuar, desengonçado sem muita coordenação, errava os movimentos e muitos riam de mim, me deixavam então no gol, ou afastado da quadra. Me lembro que mesmo assim, por maldade, jogavam a bola muito forte em mim.


No meio do ano vieram alunos novos, havia uma menina e um menino que sentaram perto de mim e puxavam conversa, logo eu fiquei gostando da menina, mas descobri que ela tinha namorado então eu me afastei. O outro menino estudava em escola particular era muito inteligente. Mas seu pai não pode mais pagar escola particular então ele teve que terminar aquele ano na escola pública.


Este menino me ajudava com as matérias e em troca ele pediu para eu carregar os materiais dele então eu topei. Tínhamos amizade, andávamos juntos. Mas em pouco tempo os demais alunos começaram a me chamar de gay por ter amizade com este rapaz, riam de mim... Fiquei muito triste, as pessoas me discriminavam e zombavam de mim, eu acabei me afastando de meu amigo e me isolei novamente.


Quase no final do ano. Tivemos que mudar de casa, fomos para um outro bairro, mais distante, na periferia, todavia continuei estudando nesta escola. Mas tinha que ir de ônibus circular. Era um bairro violento, havia tráfico de drogas e rivalidades entre bairros. Perto dos últimos dias de aula eu passei por um assalto e apanhei muito. Fiquei todo machucado e fui atendido em um hospital. No outro dia fui todo enfaixado para escola, cheio de curativos e hematomas. Na escola eu cheguei todo enfaixado e alguns colegas se compadeceram de mim. Estava sentindo muitas dores e preferi não ir mais à escola. Eu já tinha passado de ano, assim foi meu último dia de aula, todo machucado.


Desta forma encerrei minha vida escolar que começou comigo chorando no primeiro dia e terminou comigo chorando no último dia. Não foi fácil, mas me fez crescer muito e me superar em muitas coisas."


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