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Capacitismo estrutural: o limite é o preconceito.

Atualizado: Jan 15

Por Ana Floripes - Professora



#PraTodosVerem #pracegover: À direita, a frase: Se o lugar não permitir o acesso a todas as pessoas, esse lugar é deficiente. Thais Frota. À esquerda: Foto colorida que mostra parte do braço de um rapaz; sua mão está no pneu da cadeira de rodas. Título do post: Capacitismo estrutural: o limite é o preconceito. Abaixo: Por Ana Floripes, professora. Fim da descrição.


Ainda me lembro. Setembro de 2008, atendi no Núcleo Regional de Educação de Cianorte - NRE, um adorável estudante, diagnóstico distrofia muscular de Duchenne, do município de Cianorte, acompanhado de seu pai, com o objetivo de reivindicar questões relacionadas à acessibilidade de ordens arquitetônica e curricular, bem como relatar problemas que enfrentava de cunho emocional. Ele trouxe às reivindicações anotadas numa folha de papel e nos informou que havia escrito há bastante tempo, mas não vieram ao NRE antes porque quebrou a perna ao cair da cadeira de rodas dentro do espaço escolar. Ao ler as anotações, ele foi às lágrimas, pois elas eram as expressões, segundo ele, do sentimento de humilhação que vivenciava.


Relatou que se sentia envergonhado e incapaz, pois todas às vezes ao transitar no espaço físico da escola, tinha que ser conduzido pela professora ou por colegas na cadeira de rodas convencional e que todo esse constrangimento seria evitado se a escola tivesse rampas, pois possuía uma cadeira de rodas motorizada, que permitia a sua independência de ir e vir.


Segundo o pai, com a ajuda do ex-professor especializado, nos finais de semana, construíram algumas rampas provisórias, no entanto, essas não eram suficientes para que o direito de acessibilidade do estudante fosse garantido.


Outra reclamação do estudante consistia na falta de um Professor de Apoio Especializado, do sexo masculino, pois todas as vezes que sentia vontade fisiológica, o estudante não falava para a professora, pois se sentia envergonhado de ser levado ao banheiro, que também não era adaptado e, principalmente, porque não confiava na força física dela, que tinha que pegá-lo nos braços, para tirá-lo da cadeira de rodas e colocá-lo no vaso sanitário e com isso acabava por segurar as necessidades. Ele elogiou muito o trabalho do ex-professor contratado pelo Processo Seletivo Simplificado. Naquele ano foi substituído por uma professora do Quadro Próprio do Magistério.


Solicitou o direito de participar das aulas de Educação Física. Quando separado tinha a opção de Jogar Xadrez, mas não realizava essa atividade, pois não tinha ninguém para jogar com ele e a Professora Especializada não sabia. Isso acabava privando-o do contato com os colegas. O estudante sabia que sua condição física demandava tratamento diferenciado, reclamava apenas de não participar das atividades em grupo e da falta de atividades específicas que atendessem suas necessidades, sem separá-lo dos amigos. Também solicitou que tivesse no Colégio uma cobertura para que em dias de chuva, seu pai pudesse, nos horários de entrada e saída, entrar no recinto escolar e estacionar o carro, sem que corresse o risco dele ficar molhado; e uma carteira de sala de aula adaptada.


Reclamou ainda do fato de tudo que ele precisava, por exemplo, pegar uma borracha, tinha que pedir para a Professora Especializada. Ele gostaria que os colegas de sala o ajudassem nesse tipo de tarefa. No horário do lanche reclamou de ficar separado dos amigos.


O protagonista desse relato partiu desse plano, mas concluiu o Ensino Médio e eu o vi com sua cadeira de rodas motorizada passando nas rampas da escola. Elas foram construídas por meio do programa do governo federal, escola acessível. Naquele dia estava sorrindo. Jamais o esquecerei. Sua beleza era única e a inteligência acima da esperada para sua idade. Um grande leitor e pesquisador! Ele só queria aprender e estar junto com seus amigos.


Ano de 2021, o que leio? Propostas de separação de estudantes com deficiência dos demais. Dessa forma, não tem como não me lembrar dessa história. Eu quero ler projetos governamentais que promovam a acessibilidade arquitetônica, atitudinal e curricular. Ao invés de encararem as limitações estruturais de frente, as acrescentam, aos estudantes que deveriam ter o direito de aprender garantido nas legislações. As deficiências são várias, mas a cultural é a que anestesia as demais. Ela “mata”, principalmente os sonhos, por meio do preconceito e da discriminação.



#PraTodosVerem #pracegover - À esquerda Professor Marcos Gaiotto, ao centro Gabriel Magon Martins (In memoriam) e à direita Professor Antonio Graciano Trentin (In memoriam).

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