Câmara Municipal de Cianorte, acolhe demanda importante de nosso município

Atualizado: Fev 15

Por Ana Floripes - Professora

Fonte: https://blog.estantemagica.com.br/sintomas-de-autismo/


Década de 90, século XX, era habitual ouvirmos: “Você percebeu que aquela criança é estranha?” ou “É impossível a presença daquele menino em sala de aula, pois quando fica nervoso, joga as carteiras na parede.” Naquele momento, comecei a prestar atenção a esse público que dificilmente permanecia no espaço escolar. Lembro-me, um deles, após quebrar sua bicicleta e jogá-la na parede da escola, numa fúria incontrolável, foi embora aos prantos e todos que ficaram permaneceram perplexos. Algumas pessoas aparentavam sentimento de compaixão, outras, julgavam e acusavam que lhe faltava uma surra bem dada e que poderia ser filho de pais permissíveis. Outras ainda comentavam: “O garoto estava possuído”. Agora, imaginem o pensamento antes da década de 90. Entretanto, esses comentários continuam na atualidade, embora saibamos que o resultado sobre esse tipo de discussão é desgastante e muitas vezes, improdutiva. Todavia, é necessário separarmos uma situação da outra. Ou seja, a do senso comum do conhecimento científico.


No início do século XXI, as demandas das escolas com relação à diversidade aumentaram e continuaram as mesmas indagações a respeito da população infantojuvenil considerada “estranha”. Essa era a forma de dizer que acontecia algo diferente, contudo não conseguiam explicar por meio do senso comum, o que realmente estaria atrás do termo “estranha”. Precisávamos da Ciência.


Eu recebia solicitações de como encaminhar o trabalho pedagógico dos estudantes com as “condições” mencionadas, no Núcleo Regional de Educação de Cianorte. Muitos foram afastados do ambiente escolar e também não recebiam atendimento de saúde. Sempre procurei apoio na área da saúde e o máximo que conseguia naquela época eram consultas esporádicas e alguns medicamentos. Não havia acompanhamento de especialistas.


Na escola, tudo acontecia... Houve um dia que um garoto surtou e quebrou alguns objetos. Ao chegar em casa, de posse de um machado, destruiu sua bicicleta. Fui até sua casa e o encontrei chorando muito e com uma bíblia na mão. Ela estava toda sublinhada, sinal de que a utilizava bastante. Ainda lembro-me até da cor de seus olhos, pois fixou seu olhar ao meu e pediu: “Estou pedindo para Deus me curar e ajudar a encontrar meu pai, você poderia me ajudar a localizá-lo?”. Outra imagem que não me esqueço, foi quando ao visitar um estudante o encontrei no lugar que mais gostava de ficar após as crises, no fundo da data, olhando para o “nada” e jogando pedrinhas...


Enquanto isso, continuava batendo nas portas e pedindo socorro porque no município de Cianorte somente havia o Centro de Atenção Psicossocial de Adultos. A resposta sempre era a mesma: “Não podemos fazer nada. Não há Políticas Públicas para atender esse público em nossa cidade. Não temos estrutura”. Eu sempre emendava: “Então, o estudante com pouco poder aquisitivo só terá direito ao atendimento da área da saúde mental ao completar 18 anos? “Até lá, se sobreviver, não haverá mais chance de cura ou controle do problema de saúde...” Lembro-me quando fui participar de uma reunião do Conselho Municipal de Saúde e ao colocar a situação, ouvi a resposta: “Professora, como não há Políticas Públicas, não há nada que possamos fazer, há duas alternativas: ou as pessoas acabarão morrendo ou terão que se mudar de município.” Naquele momento, fiquei horrorizada, porque não era essa mensagem que esperava ouvir. Hoje entendo o que tentou me dizer. A invisibilidade faz parte de um projeto...


E assim, fui testemunhando agravamento de doença por falta de diagnósticos precisos, acompanhamento e tratamento. Ademais, era corriqueiro a internação em Hospitais Psiquiátricos, em nível de país. E, a sociedade? Em silêncio. Até mesmo as famílias, com os casos, tinham medo de participar do movimento para a implantação do Centro de Atenção Psicossocial infantojuvenil - CAPSi. Foram inúmeras as vezes que procurei os poderes legislativo e executivo, o silêncio, indescritível! Não recebiam essa demanda reprimida. Poucos anos atrás, apenas um dos vereadores se engajou na causa. Os demais, apáticos à situação. Enfim, alguns somente receberam a demanda quando veio a determinação da área da justiça. Outras funções, cargos de confiança, tanto estadual quanto municipal? Silêncio total. Enfim, poucos encaram esse tipo de luta. A hipocrisia reina. O CAPSi é resultado de intensas lutas que duraram muitos anos.


Qual o motivo desse texto? Para informar que, dessa vez, será diferente, isto é, não haverá a intervenção da justiça: a Câmara Municipal de Cianorte acolheu a solicitação e fará uma indicação extremamente importante: implantação de um Centro de Referência para atender pessoas com diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista – TEA. Contamos com o apoio da sociedade. O mesmo terá como objetivo principal:


Realizar a intervenção precoce e com protocolo seguro de saúde. Deverá ser composto por profissionais aptos a diagnosticar crianças no espectro, atender pessoas com TEA, capacitar profissionais da área da saúde e educação, bem como apoiar as famílias com relação às áreas psicológica e jurídica. Ademais, inserir e acompanhar por um período de tempo o público-alvo no mercado de trabalho.

Por fim, com relação ao termo “estranha", posso afirmar que o pré-conceito é legitimado por meio da cultura e estranha mesmo é a nossa inexplicável falta de atitude. Amanhã, poderá sermos nós a enfrentar os mesmos obstáculos de nossos vizinhos. Portanto, não esperem isso acontecer, ajudem-nos a derrubar as barreiras atitudinais, firmadas no preconceito cotidiano. A vida é uma teia!


Atitude:

https://www.obemdito.com.br/regiao/professora-de-cianorte-ganha-premio-nacional-por-projeto-de/3801/





869 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo

Receba nossas atualizações

Bisbi Notícias: Rua Constituição 318, Zona 1 - Cianorte PR - (44) 99721 1092

© 2020 por bisbinoticias.com.br - Todos os direitos reservados

  • Branca Ícone Instagram
  • Ícone do Facebook Branco