Avenida que mata a mata e mata o homem

Aida Franco de Lima – Professora universitária há 20 anos. Dr.ª e Mestre em Comunicação e Semiótica (PUC-SP), Jornalista e Especialista em Educação Patrimonial (UEPG - PR); Guia Especializada em Atrativos Turísticos Naturais (SENAC - EMBRATUR);Técnica em Vestuário (CEEP - PR); escritora (Série: Guardador de Palavras da Gabi).


Cianorte, planejada pelos ingleses lá nas primeiras décadas do século passado, tem ruas largas, avenidas amplas. Mas ostenta um parque industrial 'novo', onde dois carros passam grudados e é praticamente impossível de manobrar. E, também, alguns gargalos em conjuntos residenciais que foram enfiados em áreas que até há alguns anos eram rurais e portanto, com principais vias de acesso destinadas a baixo fluxo de veículos.


Quem se importa? O #macaquinho em busca de #comida não foi veloz o suficiente para vencer um #automóvel apressado (Foto: Aida Franco de Lima)


O motorista de São Paulo, que fica engarrafado por horas no trânsito, cheio de concreto, seria feliz em Cianorte, ao ser 'engarrafado' ladeado por matas. Mas o motorista de Cianorte tem pressa. Não enxerga a mata. Não enxerga o rio. Não sente o frescor da mata que precisa ser derrubada para dar lugar à avenidas. Não está nem aí com a revoada das maritacas. Não vê a graça dos macacos curiosos que beiram (perigosamente) a pista ou a simetria das caudas dos quatis. Muito provável mataria, por medo, os lagartos e algumas cobras que serpenteiam entre as telas de arame e insistem em atravessar as pistas. Não consegue enxergar nem mesmo a beleza do pôr-do-sol, buscar desenhos nas nuvens, encontrar a Estrela D'alva ou pensar no pote de ouro ao final do arco-íris.

Ele precisa chegar logo. Mesmo que seja somente no horário de fluxo. Mesmo que lá na frente o timer do sinal vermelho seja longo e o obrigue a esperar sob o sol e de cara para as fachadas de concreto.


Um dia, quando não tivermos mais florestas alguém vai perguntar: “mas como permitiram?”. Ahhh, mas tinham pressa. Tinham pressa pra chegar logo, mesmo que isso significasse chegar logo ao nosso fim. Afinal, o único animal da face da Terra que não faz falta para a natureza é o tal humano.


“Mas você é contra deixar o trânsito rápido porque não mora lá, porque não precisa ficar esperando”. Essa é sempre a mesma justificativa.


O #Cinturão #Verde é ostentado na mídia, mas na vida real sua #fauna não vale um #sinal #vermelho (Foto: Aida Franco de Lima)


O fato de Cianorte ter uma grande floresta urbana parece ser importante para arrecadar recursos do ICMS Ecológico e para ‘vender’ loteamentos e produtos diversos. Porém, essa mesma mata surge como empecilho, pois atrapalha os motoristas apressados que não suportam alguns trechos de lentidão. Entre a lentidão e a mata, a floresta que nos perdoe, mas rapidez é fundamental.


Não é fácil mudar um pensamento estruturado. Uma cultura colonizada por ideias de que preservação ambiental se opõe ao progresso. Não é fácil uma comunidade compreender que uma mata inteira, preservada, ou com trânsito um pouco mais lento é o mínimo de contrapartida que poderíamos ofertar.


A geração atual que já é capaz de dirigir seu próprio veículo parece mesmo perdida. Ela tem pressa. E de tão apressada ela esquece que quanto menos temos de verde, mais abertura damos às erosões e intempéries da natureza. Que quanto menos habitat natural, mais ‘personas non gratas’ que abrigam-se no interior da floresta buscarão refúgio em nossas casas. Como por exemplo o famoso mosquito-palha, típico de nossas matas, (Lutzomyia longipalpis) que transmite a leishmaniose visceral, ou calazar. Sim, ou você acha que a natureza não cobra seu preço? Cedo ou tarde ele vem.


O macaquinho deixou nos #asfalto o que seria #alimento, talvez até para a sua #família que nunca mais o viu (Foto: Aida Franco de Lima)


Talvez, se houver tempo, caberá à geração que está chegando compreender que se estamos inseridos em uma cidade com área verde, temos que agir de modo diferenciado e darmos nossa cota de sacrifício. E os animais que ficam divididos entre as matas cortadas por pistas, cada vez mais velozes e furiosas? E a poluição sonora que ecoa mata adentro? E o aumento da poluição atmosférica? Quem, de todos que defendem a ampliação de avenidas, em algum momento pensou nessas e outras questões? Os trabalhadores, principalmente os assalariados dificilmente farão ou terão respostas a essas perguntas.


Se os gestores não puxarem o freio de mão, para rever conceitos, o que hoje é orgulho para a Cidade, o Cinturão Verde, no futuro, não passará de uma fotografia aérea. Uma imagem amarelada na parede de uma repartição pública, cuja fauna e flora foram atropeladas para que os motoristas chegassem mais rápido. Mesmo que ao fundo do poço.



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