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Autismo: quarenta anos de lutas em algumas linhas

Atualizado: Jun 28

Por Ana Floripes - Professora







As imagens me acompanham desde a década de 80 do século passado, minha primeira Sala de Aula Multisseriada - 1ª a 4ª séries. Ainda cursava o Magistério. A Escola ficava próxima ao Rio Ivaí, no Município de Japurá-PR. Eu sempre chegava antes das crianças. A sopa trazia pronta da cidade para a hora do intervalo. A água tirávamos do poço. Também cuidávamos da limpeza da sala. Naquela turminha havia um garotinho que pouco falava. A mãe dele dizia que não aprendia. Era o terceiro ano na escola e ainda não lia e nem escrevia. Quando me aproximava manifestava um grau elevado de ansiedade.


Houve um dia em que saiu correndo da sala e entrou numa lavoura de café, próxima à escola. Fui atrás e ao encontrá-lo estava balançando o corpo e olhando fixo para o horizonte. Pedi licença e sentei-me um pouco distante e repeti os movimentos dele e verbalizei: “Esse movimento acalma”. Ele olhou para mim e sorriu. Peguei uma varinha e escrevi meu nome no chão e ele copiou e o escreveu com seu dedo. Falei que meu nome era composto por duas vogais e uma consoante. Em seguida, ele escreveu seu nome. Naquele momento, a nossa comunicação se iniciou. Eu era uma adolescente, não sabia sobre o motivo do comportamento dele ser daquela forma, mas sabia que era necessário encontrar um meio para nos comunicarmos. No outro dia, ele começou a escrever num caderno que eu havia encapado e feito vários desenhos nos cantos das folhas. Já naquela época entendia que todas as vezes que balançava o corpo precisava prestar atenção em sua fisionomia se estava alegre ou apenas agitado por alguns motivos e deveria descobrir os porquês.


No final da década de 90, fui convidada pelo Professor Pedro Edgar Moreno Aguilera para compor a equipe pedagógica do Núcleo Regional de Educação de Cianorte-PR - (NRE). Foi nesse momento que descobri que havia vários estudantes que tinham comportamentos parecidos com o do meu inesquecível aluno. Só que nesse período eram separados dos outros numa sala que ficava no mesmo espaço dos demais. Não existiam no Sistema. Só eram incluídos quando eram considerados “preparados”. Muitas vezes, quando estavam “prontos” tinham 12, 13, 14, 15 anos. As matrículas eram feitas e ingressavam nas turmas de estudantes com idades inferiores. Antes, muitos se sentiam constrangidos e com vergonha de estudarem separados da maioria, depois porque as idades eram discrepantes. Eles sempre os maiores das turmas. Nas pastas individuais nas secretarias, vários laudos de comorbidades, menos os das causas.


No início do século XXI com a evolução da Políticas Públicas iniciou-se um grande movimento para incluir as crianças, sempre que possível, no mesmo espaço que as demais. Foi nesse cenário e com muitas capacitações que descobri que o meu aluno da minha adolescência estava no espectro Autista.


Nos anos de 2009 a 2011 participei do Programa de Desenvolvimento Educacional – PDE, na Universidade Estadual de Maringá. Eu estava na escola porque tinha que aplicar o projeto e recebi o convite da Secretaria Estadual da Educação do Paraná, Departamento de Educação Especial - SEED/DEE para retornar ao NRE porque haveria um avanço no conteúdo que sempre questionava nas reuniões: Saúde Mental. Atendi ao chamado. Também percebi que a tarefa seria grande e precisaria de apoio, não recebi. Então, apareceu um desafio, tinha uma demanda para assumir no Colégio Estadual Igléa Grollmann - EFM e que outras pessoas não queriam, justamente por ser da área da Saúde Mental e no município não ter equipamento adequado para atendê-la. Eu saí do NRE, após trabalhar mais de uma década e fui atendê-la. No referido Colégio, recebi todo o apoio necessário para continuar a luta fora de seus muros. Eu fazia parte do Comitê Regional de Saúde Mental, não me permitiram continuar porque diziam que estava na escola. Como representante do Município, diziam que era funcionária com vínculo estadual. Então, a Promotora de Justiça, Doutora Elaine Lima me nomeou como representante do Ministério Público. Foram anos de muita luta na Justiça, de 2011 a 2016.


Mas, continuei, porque após muitos estudos soube dos possíveis diagnósticos daqueles estudantes que nunca os receberam: Transtorno do Espectro Autista (TEA). Entretanto, poucas coisas mudaram a esse respeito.


No ano de 2019 retornei ao NRE, mas com prazo definido, para socializar ações realizadas no Colégio Estadual Igléa Grollmann – EFM, resultantes da implementação de meu projeto do PDE, desde o ano de 2011. Atualmente, as atividades fazem parte do Projeto Político-Pedagógico da Escola. Eu tinha que retornar, os estudantes que acompanhava há anos me pediam todos os dias.


Hoje voltei ao passado, por causa de um telefonema, o do Chefe do NRE de Cianorte, Sr. Emerson Tolentino de Matos, meu antigo Diretor no Colégio Estadual José Guimarães - EFM. Ele ratificou a minha presença na Comissão de Estudos da Causa do Autismo no Município de Cianorte, como representante da referida Instituição. A próxima etapa será a realização do Censo para a elaboração de Políticas Públicas que atendam a realidade local e regional. Ou seja, o mapeamento de nossa situação, para providências a curto, médio e longo prazo.


Todos os registros que posto nas Redes Sociais há anos têm propósitos e a finalidade é sempre melhorar a vida da comunidade escolar. Eles comprovam a trajetória em busca dos objetivos.


Uma coisa é certa: nunca me esqueci do meu primeiro estudante no espectro Autista e que ninguém sabia identificar naquele tempo. Todavia, o alfabetizei e consegui ajudá-lo quando entrava em crise. Eu ainda me pergunto: “Aonde e como ele estaria no momento?” Só gostaria que soubesse que nunca desisti!


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