Autismo em Cianorte: projeto em construção com a participação das famílias interessadas no assunto

Por Ana Floripes - Professora



Essa semana li a matéria: “Autista é 1º lugar em medicina: “Não abraço meus pais, mas estudo por eles”


Segue texto na íntegra:


“Após ser diagnosticada com autismo, Rúbia Carolina Morais, 30, decidiu estudar medicina e foi aprovada na Universidade Federal de Jataí (GO).

Imagem: Reprodução/Instagram


"Carol começou a andar e falar aos oito meses de vida. Aos três, já sabia ler e escrever. O vestibular seria fichinha? Ela passou aos 16 e se formou em odontologia aos 20. Todos os feitos, acima da média, tinham uma explicação: Carol é neurodiversa. Mas isso ela só descobriria muito tempo depois, trabalhando como dentista, no auge de uma crise gravíssima. "Eu tinha muita dor de cabeça todos os dias e vomitava entre um paciente e outro. Me jogava no chão ou ia para o banheiro e tirava os sapatos. Se eu não estivesse atendendo, você iria entrar na minha sala e eu estaria descalça, com a luz apagada. Era assim. Eu passava mal todos os dias. Aí fui tendo muitos problemas", conta.... A hipersensibilidade à luz e ao barulho do consultório causavam dores de cabeça lancinantes e prejudicavam o trabalho de Carol. Sem conseguir manter os atendimentos, ela acumulou dívidas e chegou a ser despejada da casa onde morava. "Tudo dava errado e eu não entendia o porquê", diz. Foi virando uma bola de neve e eu não sabia que era por isso. Tudo dava errado e eu não entendia o porquê. Eu não conseguia me manter no trabalho, não conseguia ter um relacionamento, não conseguia nada. Era dificuldade atrás de dificuldade. Praticamente tudo deu errado. Foi quando eu tentei suicídio e veio o diagnóstico: autismo. E aí fui praticamente obrigada a procurar por tratamento. Ainda no hospital, queriam que eu fosse encaminhada para internação compulsória em um hospital psiquiátrico.” Publicada: https://www.uol.com.br/universa/colunas/morango/2021/04/21/autista-e-artesa-ela-passou-em-1-lugar-em-federal-de-medicina.htm?fbclid=IwAR1HoziKckmvNys0j01qdVTHZaJKojHHfF5Fl-91rZsTcZgOokbzEttACKglicada


É sabido que o diagnóstico de Transtorno do Espectro do Autismo (TEA) em mulheres é mais difícil que em meninos, tendo em vista que muitas “camuflam” os sinais de Autismo. As meninas com alta capacidade cognitiva, muitas vezes, são diagnosticada na fase adulta. O comportamento de muitas meninas são confundidos como extrema timidez, quietude, excentricidade e não como dificuldades acentuadas na área da interação social. O diagnóstico tardio e seus efeitos combinados a não compreensão tem o preconceito como pano de fundo acompanhado de forte impacto social. O quadro gera muito sofrimento psíquico e traumas aparentemente intransponíveis na pessoa e em seus familiares.


É comum ouvir relatos de diagnósticos equivocados, tratamentos médicos desnecessários, uso de medicação incorretas, intensos sofrimentos psíquicos, desadaptação social, afetiva, profissional e acadêmica, suicídios de pessoas consideradas com comportamentos “estranhos” em nossas comunidades. Conheço pessoas que até hoje sofrem com as sequelas impostas pelo desconhecimento sobre sua condição. O diagnóstico tardio acontece, pois muitas vezes, a criança recebe vários diagnósticos antes do TEA, primeiramente recebem das comorbidades. O do transtorno, na maioria das vezes, na idade adulta, após sofrer muita discriminação.


Desse modo, há casos que só são detectados após o contato social com um maior número de pessoas. É na escola que a observação ocorre com facilidade. Mas, se ela desconhecer o assunto sobre o Autismo e sem um Centro de Apoio Especializado, as lacunas serão enormes e sem chance de êxito. Nessa situação, o que sobram é o sofrimento e a usurpação do direito da pessoa na condição citada.


Há histórico que ao não desistir da busca do diagnóstico na fase da adolescência ou adulta, ainda encontra-se profissional que diz: “Mas, ele não é importante. Não se preocupe”. A meu ver, essa frase traz nas entrelinhas: “Não estou qualificado(a) para lhe atender.


Pode-se constatar no artigo “Um estudo de 20 anos de morte por suicídio em uma população com autismo em todo o estado”, publicado em abril de 2019, na revista médica bimestral, a Autism Research. Essa, estabelecida como jornal oficial da Sociedade Internacional de Pesquisa em Autismo. Os dados da pesquisa da vigilância existentes em Utah, nos EUA, apresenta estudos sobre a incidência de suicídio entre pessoas com TEA.


Em janeiro de 2019, foi publicado pelo Journal of Abnormal Child Psychology um artigo chamado “Prevalência de transtornos depressivos em indivíduos com Transtorno do Espectro do Autismo: uma meta-análise. A pesquisa usou 7.857 artigos para avaliar a prevalência atual e ao longo da vida de transtornos depressivos unipolares em crianças, adolescentes e adultos com TEA. O estudo mostrou que as taxas de suicídio entre pessoas com TEA foram maiores em estudos que incluíram participantes com maior inteligência. Além disso, a prevalência ao longo da vida foi associada ao aumento da idade e às pessoas de cor branca. As amostras que incluíram mais participantes brancos tiveram maior prevalência de transtornos depressivos ao longo da vida. Fonte: https://autismoerealidade.org.br/2021/03/22/depressao-e-suicidio-no-autismo/

Foi após a aprovação da Lei nº 12.764, de dezembro de 2012, também conhecida por Lei Berenice Piana, que o assunto Autismo entrou na pauta da política pública de saúde. A referida lei incluiu a pessoa com TEA no grupo das pessoas com deficiência. Todavia, apesar de as leis estarem disponíveis ainda temos muitas dificuldades de ter acesso aos serviços públicos e há um grande déficit de atenção voltada à área do Autismo. O diagnóstico tardio, na esmagadora maioria dos casos, é consequência da falta de qualificação nas áreas da saúde, educação e assistência social ou inexistência da equipe multidisciplinar especializada. Os prejuízos na área de desenvolvimento quando se tem o diagnóstico tardio sempre são acompanhados de histórias repletas de sofrimentos psíquicos e, muitas vezes, irreversíveis com relação à qualidade de vida. As causas desses são sempre de origem biopsicossocial.


Há anos testemunhamos o agravamento do quadro de saúde mental de muitas crianças e adolescentes, inclusive com tentativas de suicídio. Não dá para colocar a cabeça no travesseiro e dormir tranquilamente tendo o conhecimento de que a área da saúde pública está em débito com relação ao atendimento qualificado na área do Autismo. Enfim, casos parecidos ao da Carol também existem em Cianorte-PR e conhecemos.


Para finalizar, ter conhecimento sobre o diagnóstico de TEA, receber o tratamento e acompanhamento é DIREITO. Então, a frase vinda de quem não está no espectro, de que não fará a diferença, não é bem vinda. Sugiro a quem se utiliza dela que se qualifique na profissão escolhida.



Obs.: em breve haverá a reunião com o Poder Legislativo do município de Cianorte com a finalidade de elaboração do Projeto que atenda a TODAS as pessoas que estão no espectro e também às que apresentam indicativos do transtorno.








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