As violações de Direitos Humanos na Saúde Mental e suas consequências

Atualizado: Jan 10

Por Ana Floripes - Professora



Imagem: Natali_Mis/iStock


“Eu odeio o meu jeito. Só penso em coisa negativa e tudo que faço é diferente da maioria das pessoas. Penso em coisas ruins e muitas vezes feias que não prestam. Tenho ódio de mim. Sou burra e, além disso, quando coloco uma coisa na cabeça e que não se realiza na hora não consigo pensar em outra coisa. Sou muito ansiosa. A minha cabeça fica cheia de coisas e não consigo pensar numa coisa de cada vez. Eu não sou normal, professora, estou ficando louca. Aliás, muitas pessoas me chamam de louca. Quanto surto na escola, sinto vergonha de voltar no outro dia. Será que um dia serei 'normal', professora ?". Lívia Monteiro, 13 anos.

Para Carlos Roberto Loreto, “Nenhuma espécie é tão complexa quanto a nossa, e nenhuma sofre tanto como ela. Milhões de jovens e adultos são vítimas de depressão, ansiedade, estresse, etc. A tecnologia do lazer nunca foi tão grande e as pessoas nunca estiveram tão tristes e com tanta dificuldade de navegar nas águas da emoção. Os medicamentos antidepressivos e os tranquilizantes são excelentes armas terapêuticas, mas não tem capacidade de conduzir o ser humano a gerenciar seus pensamentos e emoções. A psiquiatria trata dos seres doentes, mas não sabe como torná-los felizes, seguros, sábios, serenos...”


As violações de Direitos Humanos na Saúde Mental existem, existiram e algumas de suas formas sutis ou naturalizadas persistem. Segundo Norberto Bobbio: “Os direitos nascem quando o aumento de poder do homem sobre o homem - que acompanha, inevitavelmente, o processo tecnológico (a capacidade de dominar a natureza e os outros homens) - ou cria novas ameaças à liberdade do indivíduo, ou permite novos remédios para suas indigências”.


Portanto, se reconhecermos que a privação dos Direitos Humanos produz doença e que, inversamente, a promoção desses direitos produz saúde, mesmo que os tempos não sejam fáceis para os sonhadores da paz, nos parece que a sociedade estará bem próxima de um belo recomeço... Não há silêncio que não termine.


A luta pelos Direitos Humanos busca assegurar que cada homem, em sua singularidade e pluralidade que o constituem, possa ter direito a sua humanidade. Em que se constitui o direito à humanidade? Como traduzir os elementos fundamentais que atribuem à vida sua condição de humana? O que é a experiência do humano, quando podemos dizer que uma vida está habitada por condições de humanidade que a distinguem do estado de natureza e da barbárie?


A sociedade tem de se esforçar, coletivamente, para que os homens, do singular ao público, respondam a esse conceito. O sentido da nossa humanidade se resgata da nossa vida em coletividade. Portanto, a degradação do outro degrada a minha própria humanidade. O outro, diverso de nós, deve ter assegurado o seu direito à humanidade, o exercício de sua singularidade, sua individualidade, a igualdade de oportunidades, acesso ao cuidado e respeito ao seu sofrimento e as suas referências de valor, seja no campo ético, moral e do afeto.


Mas essa luta não é simples nem fácil. Nesses "tempos sombrios", precisamos de um empreendimento persistente em compreender as possibilidades da convivência humana em um mundo que se estrutura na frágil fronteira entre a civilização e a barbárie. Um compromisso do despertar das almas silenciadas e invisíveis, assegurando, a cada cidadão, seu "direito de ter direitos", pois a cidadania não nos será dada somente pelo texto normativo: é no campo da luta que será conquistada.


A pergunta que hoje rege em nossas reflexões e intervenções não se restringe somente ao campo da denúncia da violação de direitos, temos de pensar também adiante, no que podemos fazer na linha da promoção dos direitos e inclusive da própria saúde mental. Assim, perguntamo-nos de como podemos promover os Direitos Humanos, qual a cota de responsabilidade que a cada um de nós deve caber para fazermos com que as possibilidades dos direitos se universalizem em uma sociedade desigual, diferenciada e plural na ordem de suas contradições.


Nossa luta para que o direito à humanidade seja um direito de todos envolve, sobretudo garantir ao homem seu direito à liberdade de expressão, o poder de participar das decisões que referem a si mesmo, que possa tomar a palavra e participar do seu direito à definição do que é uma cidadania desejável, partilhando responsabilidades (deveres) e direitos. Isso significa enfrentar o modelo político em vigor nas sociedades modernas, organizadas, bem qualificadas e equipadas tecnologicamente, onde o Estado goza de sua decisão soberana pelos destinos da sociedade.


É preciso urgentemente recolocar a questão nos termos que lhe cabem, que esse mundo não é sem autores e responsabilidades, que o mundo que vivemos é fruto do espaço propriamente político no qual os dramas da existência são dados e desenhados.


A nossa responsabilidade para com um mundo melhor e possível está em dizer SIM à construção de uma política pública que acompanhe as diversas humanidades pela cidade, na pele escura ou na loucura, com terra ou sem terra, do mato ou da cidade, de que tribo for. A vida é um direito. Fazer da experiência de vida um ato que traduza o que chamamos de humanidade é um direito de TODOS.


Há trinta e cinco ano na profissão do Magistério sou testemunha de muitas violações de Direitos Humanos. Acompanhei muito agravamento de doença na área da saúde mental da população infantojuvenil. Eu sofria muito quando a encaminhavam à hospitais psiquiátricos porque a doença agravava. Mas, antes, com raríssimas intervenções. Dificilmente faltavam à escola. Todavia, não havia equipamento da área da saúde para tratá-la no processo. Atualmente, a automutilação tem aumentado, sinalizando efeitos e, muitas vezes, as causas ficam intocáveis.


As tentativas de suicídio continuam e nesse processo morremos um pouco também. Alguns casos conseguem e ainda visito túmulos. Há sempre o sentimento de que poderíamos ter feito mais... Cabe mencionar, que o problema é social, em algumas situações, é terceirizado apenas para as áreas da educação e saúde. Há muito o que se falar sobre esse assunto. Quero aproveitar o espaço para parabenizar aos inúmeros profissionais das áreas citadas que se desdobram para salvar vidas. Em especial, meu agradecimento aos profissionais que atuam nos Centros de Atenção Psicossocial de Cianorte-PR pelo relevante trabalho desenvolvido em nosso município.


Recebo inúmeros desabafos e pedidos de apoio diariamente. Após recebê-los procuro pessoas comuns e profissionais para colaborarem no processo de socorro. Assim, sempre que possível, minimizamos sofrimentos psíquicos.



O link abaixo trata-se da Matéria realizada pela RPC – Paranavaí. O objetivo de postá-lo é apresentar o grande trabalho (vidas) que precisa ser acolhido pela sociedade.



https://globoplay.globo.com/v/8093652/









Em tempo: A saúde mental da população infantojuvenil, dos profissionais da educação e saúde, como está? Quem cuida de quem cuida da população infantojuvenil?



*Lívia Monteiro, nome fictício.
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