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As lições sempre ficam (Autismo): só ensinamos quando estamos dispostos a apreender

Atualizado: 29 de dez. de 2021


Por Ana Floripes - Professora de Apoio Educacional Especializado (PAEE)



Anfiteatro da Unipar, 17/12/2021 - Formatura do Ensino Médio - Colégio Estadual Igléa Grollmann - EFM - Cianorte-PR - Professora Ana Floripes, Lorena Gabrielle dos Santos Xavier, 19 anos e Letícia dos Santos Anderson, 17 anos - imagem: Aida Franco de Lima (Jornalista)



Era fevereiro de 2015, primeiro dia letivo, após ter procurado uma estudante no pátio em meio aos 430 estudantes e não a encontrado, a Silvia Vilela de Oliveira Rodrigues, ex-diretora do Colégio Estadual Igléa Grollmann – EFM, de Cianorte-PR, me informou que na sala número 02, 6º ano, em meio aos 36 estudantes estaria a Lorena Gabrielle dos Santos Xavier, com diagnóstico tardio de Transtorno do Espectro Autista (TEA). Lembro-me que ao chegar na sala, discretamente olhei os rostinhos das crianças, a maioria presente no palco da UNIPAR no dia 17/12/2021. Logo identifiquei uma garotinha. Estava ocupando a segunda carteira, da segunda fila, próxima à porta da sala de aula. Em cima dela, vários materiais e em seu colo o livro da Frozen. Em todos os locais por onde andava, durante o Ensino Fundamental, levava consigo o referido livro. Quando ficava muito ansiosa, separava desenhos dos personagens e a oferecia. Ela pintava maravilhosamente bem. Lorena possui um talento manual diferenciado. É super talentosa!


No atendimento do Centro de Atenção Psicossocial Infantojuveni (CAPSi), a equipe descobriu outro grande talento da estudante Lorena, nas atividades desenvolvidas na piscina. Destacou-se na natação quanto à rapidez e o fôlego. A impressão é que fazia anos que realizava tais exercícios. Ademais, foi percebido que a estudante apresentava medo de crescer e, como consequência, se apavorava ao se aproximar a data de seu aniversário. A escola planejou várias atividades para favorecer o seu desenvolvimento. Uma delas foi comemorar o aniversário-surpresa na escola. O mesmo foi planejado com cautela, ganhou o vestido parecido ao da personagem Frozen, de uma pessoa da comunidade. No dia a estudante assumiu a identidade da personagem e suas atitudes eram diferentes do cotidiano. Naquele instante, o TEA não a impediu de andar livremente pelo espaço escolar, receber os cumprimentos das pessoas que encontrava no caminho, abraçar sem restrições e também entrar em várias salas de aula, inclusive da turma do Ensino Fundamental – fase I. A escola municipal funciona no mesmo terreno do Colégio. Ela tirou fotos com os profissionais e estudantes. Os colegas de sua turma a aguardaram na sala de aula, cantaram os parabéns e a aplaudiram com moderação, som baixo. Lorena e sua mãe distribuíram pedaços de bolo aos presentes.



Lorena tinha medo de enfrentar a mudança da fase da infância para a adolescência. O Livro funcionava como um porto seguro



A partir daquela data, ano de 2016, caminhou pela escola e não demonstrou medo. A frase: “Tenho medo de crescer”, diminuiu gradativamente. Ela verbalizou três anos depois, que o pavor seria porque ao crescer, correria o risco de perder sua mãe para a morte. Também foi relatado pela mãe que, depois da comemoração de seu aniversário, sua filha deu o primeiro abraço em seu avô. Ao contar sobre esse fato, se emocionou. Na escola foi muito estimulada a cumprimentar as pessoas e aos poucos aceitava abraços. Com o passar do tempo apresentou a iniciativa de abraçar as pessoas de seu convívio social. Foi possível verificar a importância de identificar e compreender os sentimentos da estudante, bem como os momentos em que poderiam gerar quadros de ansiedades acentuadas, com a finalidade de antecipar e prevenir diversas situações, isto é, as principais causas que desencadeavam sofrimentos psíquicos durante a realização das atividades acadêmicas. Desse modo, a comunidade escolar, aprendeu a distinguir as causas de origem da dor psíquica derivadas do TEA e do ambiente e/ou mistura das duas condições. Na fala da estudante, os abraços diminuíam os efeitos da ansiedade.


Outro resultado favorável ocorrido no segundo semestre do ano letivo de 2016 é que, após muita orientação, Lorena conseguiu assistir 20% das apresentações do projeto Cia Circo Imaginarium, ocorridas no Centro de Eventos Carlos Y. Mori. Para tanto, a sentamos na primeira fila e foi orientada a não olhar para trás. Havia mais de setecentas pessoas assistindo ao espetáculo. As colegas de sala, Ana Clara Saugo e Rafaela Limeira, que a ajudavam muito em sala de aula, participaram diretamente das atividades do espetáculo. Assim que a viram foram encontrá-la e abraçá-la, dizendo: “Estamos felizes porque veio”. Ela sorriu, demonstrou satisfação. Após, trinta minutos e ao perceber que não tinha mais condições de permanecer no local pediu que avisasse sua mãe, pois queria voltar para casa. Foi parabenizada! Ao encontrar sua mãe dizia, com euforia: “Eu consegui assistir, mãe!”


Ontem, no anfiteatro Cândido Garcia (Unipar) de Cianorte, durante a cerimônia de formatura do Ensino Médio das turmas do Colégio Estadual Igléa Grollmann – EFM, passou-me um filme em minha cabeça.


Sabíamos que seria um enorme desafio para nós, família e principalmente para Lorena permanecer no palco para participar de sua formatura, tendo em vista, os mais variados estímulos presentes no local e que poderiam lhes causar sobrecarga sensorial e também a emocional a primeira, no sentido físico, trata-se da exposição dos órgãos dos sentidos a estímulos excessivos, por exemplo luzes, sons diversos, ruídos e muita movimentação de pessoas. A segunda, é que quando uma pessoa é submetida a situações estressantes, gera uma sensação de desconforto. Entretanto, tanto a primeira quanto a segunda podem desencadear crises emocionais intensas.


Foi nesse cenário que organizamos os detalhes da cerimônia para que Lorena pudesse usufruir de um momento único em sua vida: a formatura do Ensino Médio. Ela não gosta da cor preta e pediu para suprimirmos o uso da beca, mas ao mesmo tempo não queria estar diferente dos demais formandos. Solicitou que fosse a primeira a receber o diploma porque posteriormente poderia se ausentar do local. Fiquei observando seus movimentos enquanto o processo de formatura acontecia e fiz as mediações pedagógicas necessárias, dando à estudante, algumas alternativas para driblar o alto nível de ansiedade.




Em síntese, a Lorena permaneceu às 2h30min no local, tempo total do evento. Participou de todas as atividades propostas para a noite. Dessa vez esteve olhando diretamente para plateia, aproximadamente 400 pessoas, e comemorou a vitória juntamente com os demais formandos das três turmas de 2021. Mesmo no momento da aglomeração demonstrou tranquilidade. Num dado instante, levantou-se de sua cadeira e foi até a diretora auxiliar Valquiria Charles da Silva, oradora e a abraçou. Na sequência, repetiu o gesto com o funcionário da escola, Alessandro Carvalho Lopes, que estava nos bastidores, mas podia ser visto do ponto em que estava posicionada. Em seguida, retornou a sua cadeira e continuou curtindo cada segundo de sua formatura.





Nós, profissionais da educação, nos sentimos com a sensação do dever cumprido, tendo em vista, que os anos de 2020 e 2021, nos trouxeram desafios aparentemente intransponíveis. A emoção tomou conta de todos e as palavras gratidão, esperança, fé, força, alegria, enfim as lições de aprendizagem geradas pela pandemia, foram muito comentadas por meio dos discursos. No encerramento, a mensagem de nossa amada diretora, Luciana Mara Tachini Barbosa, que se afastou da escola para tratamento de saúde, ratificou o que o Apóstolo Paulo nos ensinou “a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que se não veem” (Hebreus 11.1).



Imagem: Aida Franco de Lima (Jornalista)



Ah, para finalizar, tentei homenagear a estudante Lorena, imitando o traje da personagem Elsa, com a mensagem subliminar: “Jamais me esquecerei da linda criança que foste e muito menos da bela jovem que se tornou. Você é admirável!” Ao sair do anfiteatro foi lhe solicitado que comemorasse juntamente com seus familiares a vitória em dose dupla: a) o término do Ensino Médio; b) o resultado positivo do desafio ocorrido na noite de formatura: superação.



A educação inclusiva só se concretiza quando há o trabalho em Rede, no exemplo relatado: educação, família e saúde.


Lorena e professora Ana Floripes - festa de aniversário de 19 anos

Mãe, Lorena e irmão - festa de aniversário - 19 anos





Segue o link do vídeo da homenagem final da cerimônia de colação de grau: https://youtu.be/I7HtYb2Ws9M


Trabalho de muitas mãos e corações.



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