"Apoiadores de Bolsonaro estão morrendo mais que o restante da população"

Cidades onde Bolsonaro venceu têm mais mortes na pandemia, indica estudioso.


O Brasil chegou na triste marca de 400 mil vidas perdidas em função da pandemia e, há tempos, já é o principal centro de propagação e morte pela covid-19 no mundo. Com menos de 3% da população mundial, o país acumula mais de 15% dos óbitos registrados. O nítido fracasso brasileiro tem sido associado à nossa desigualdade social, à falta de moradia adequada para milhões de pessoas, às políticas econômicas de austeridade implementadas há anos no país e, de uma maneira muito especial, à influência do “fator Bolsonaro”.


Recente trabalho do epidemiologista Pedro Hallal indica que, a cada quatro mortes, três poderiam ter sido evitadas, se a condução do país fosse diferente. Outros pesquisadores têm trabalhado a relação entre o voto e os números da pandemia, mostrando que os indicadores são piores nos lugares onde, a julgar pelo resultado das eleições, a presença bolsonarista é maior.


Em direção semelhante, o pesquisador Osvaldo Carvalho, doutor pela Université Pierre et Marie Curie, professor voluntário do Departamento de Ciência da Computação da UFMG e especialista em desenvolvimento de sistemas para análise de taxas de atendimento do SUS, levantou a relação entre a mortalidade e o voto contra ou a favor o presidente nos municípios.


A principal conclusão é que, não fosse a influência de Bolsonaro, teríamos 95 mil mortes a menos. Confira a entrevista.


Brasil de Fato - Você fez uma série de postagens apontando que a mortalidade é maior em municípios onde Bolsonaro teve mais votos em 2018, os quais você nomeou de “municípios 17”, do que nos ditos “municípios 13”, onde o candidato Fernando Haddad venceu. No conjunto, a diferença seria de 54%, caso não houvesse a influência de Bolsonaro.


Esta descrição dos resultados da sua análise está correta? Como você chegou a essa conclusão?


Osvaldo Carvalho - Sim, a descrição está correta. Esse número de mortes a menos é calculado aplicando-se a taxa média de mortalidade, prevalente nos municípios onde Bolsonaro perdeu, à população dos municípios onde ele ganhou, e subtraindo do número de mortes por Covid registrado neste último segmento. Em outras palavras, caso o segmento onde Bolsonaro venceu tivesse a mesma taxa de mortalidade do outro segmento, teríamos (pelos números de hoje, 18/04), 95 mil mortes a menos. Os resultados são verificáveis, pois trabalhei com dados públicos e o código está disponível na internet.


Uma possível explicação seria o comportamento dos apoiadores de Bolsonaro, menos afeitos a respeitar as recomendações sanitárias?


A mortalidade por covid depende do comportamento da população (evitar ou não aglomerações, usar ou não máscaras, acreditar ou não na proteção oferecida por cloroquina...), mas também de vários outros fatores, como densidade populacional, mobilidade, clima, sistema de saúde, renda, predisposição genética, escolaridade, composição da pirâmide etária etc.

Cor da pele, pobreza, trabalho informal e influência de Bolsonaro têm maior influência na mortalidade por covid

Olhando-se o quadro do Brasil inteiro, poder-se-ia pensar que a diferença de mortalidade entre a região Nordeste (que majoritariamente votou 13) e a Região Sul (que majoritariamente votou 17) se deva a alguma combinação desses outros fatores, e que a correlação com a votação em 2018 seria uma simples coincidência. Entretanto, essa diferença se verifica quando consideramos somente municípios do Rio Grande do Sul, ou somente municípios do Ceará, ou somente municípios em qualquer dos outros estados brasileiros, com a única exceção de Pernambuco.


Como as discrepâncias dos outros fatores entre municípios de um mesmo estado são menores, acredito que o comportamento da população tenha sido sim determinante para as diferenças de mortalidade.



A correlação permanece quando segmentamos os municípios por sua população. A tendência de aumento da mortalidade em função da votação em Bolsonaro se verifica em municípios nas faixas populacionais de 0 a 10 mil habitantes, de 10 mil a 50 mil, de 50 mil a 200 mil e de 200 mil a 500 mil Somente a faixa com mais de 500 mil habitantes não apresentou correlação significativa entre as duas medidas.


Mas eu diria que, além de qualquer validação estatística, as conclusões são compatíveis com o que é certo sobre o processo de contaminação pelo vírus, que se dá pela respiração de partículas expelidas por pessoas próximas fisicamente.


Por que os municípios com mais de 500 mil habitantes não apresentaram uma correlação significativa?


A correlação é, sim, fraca nesses municípios, mas é positiva. É possível que, entre outros fatores, a baixa correlação se deva ao uso praticamente obrigatório do transporte coletivo em cidades grandes.



A relação entre o voto e a pandemia não é simples. Os números de contágios e mortes não dependem apenas da decisão individual dos habitantes de um lugar, mas também das estratégias de cada governante para combate à crise sanitária em seu estado ou município, entre outros fatores. Além disso, o comportamento dos eleitores varia ao longo do tempo. Em alguns lugares, Bolsonaro perdeu apoio, enquanto os apoiadores aumentaram em outros lugares. Isso muda alguma coisa na sua análise?


O voto em 2018 parece ser ainda um bom indicador da disposição de uma população a seguir conselhos e exemplos dados pelo presidente Bolsonaro. O trabalho recentemente publicado por pesquisadores do IEPS mostra a correlação entre votos em Bolsonaro e a aceleração da mortalidade por covid-19. Efetivamente, o fenômeno é complexo e pode ser objeto de muitos outros estudos.


Uma análise da evolução da opinião pública e da pandemia, juntamente com a adoção de medidas pelos governos estaduais e municipais, pode gerar resultados muito interessantes.

Ao analisar a vacinação no Reino Unido, Israel e Estados Unidos, você identificou queda nas contaminações e óbitos, a partir de determinado ponto, conforme aumentava o número de imunizados. O Brasil tende a repetir esse efeito?


Com relação a isso, o que fiz é muito pouco: simplesmente coloquei em um mesmo gráfico a evolução nesses países de casos e mortes juntamente com o progresso da vacinação.


A queda desses dois indicadores é uma consequência lógica da vacinação – se não ocorresse, não estariam vacinando. Pelo mesmo motivo podemos, sim, confiar na repetição do efeito aqui no Brasil. Veja como estamos no momento:



Nosso ritmo de vacinação está aquém do desejável, mas espero que, em breve, tenhamos todas as pessoas de 60 anos ou mais vacinadas. Como são essas as pessoas que mais engordam as estatísticas de casos graves e mortes, podemos esperar uma melhora gradual, à medida que o contingente de hospitalizados for diminuindo.


Existem trabalhos semelhantes ao seu, como o que a UFRJ realizou no ano passado, em parceria com o Instituto Francês de Pesquisa e Desenvolvimento (IRD).


Você pretende dar seguimento às suas análises no âmbito acadêmico? Por outro lado, como elas podem ser apropriadas no debate público?


Eu não conhecia esse trabalho, te agradeço muito por tê-lo citado. Me surpreendi ao ver que, em setembro de 2020, os autores já faziam a mesma denúncia no Valor Econômico: o voto em Bolsonaro tem forte correlação com a mortalidade por covid.


E o fizeram com um trabalho sólido, que considera, além da votação em Bolsonaro no primeiro turno (eu utilizei o segundo turno), outras variáveis explicativas, que contemplam sexo, cor, educação, infraestrutura de saúde, densidade populacional, mobilidade, afiliação política e religiosa, entre outros aspectos. Importantíssimo, fizeram testes controlados comparando municípios com características similares, diferindo apenas na votação em Bolsonaro, e confirmaram a robustez da influência dessa votação na mortalidade.

Mortalidade por covid depende do comportamento da população e de vários outros fatores

Não vejo os meus posts como um trabalho acadêmico, mas os dados estão atualizados (a situação da pandemia evoluiu bastante de agosto de 2020 para cá; o trabalho da UFRJ é baseado principalmente em dados obtidos naquela data). Eu mostro gráficos e tabelas dedicados somente à votação e mortalidade, o que, acredito, facilita a compreensão e a divulgação dos resultados.


O excelente trabalho da UFRJ mostra que, dentre todas as variáveis analisadas para explicar a mortalidade por covid, quatro têm maior influência: cor da pele, pobreza, trabalho informal e influência de Bolsonaro. Destas, somente uma pode ser mudada a curto prazo, não é? Para isso, é importante que esses resultados sejam divulgados ao máximo e fazer com que cheguem principalmente aos apoiadores de Bolsonaro. Provavelmente eles não sabem que estão morrendo em proporção significativamente maior que o restante da população.


Edição: Elis Almeida - Brasil de Fato

31 visualizações
banner_anuncie (1).png