A VELHINHA NA FAIXA DE PEDESTRES

Por: Izaura Varella - Advogada e Professora


Fiquei olhando aquela velhinha do outro lado da avenida fazendo várias tentativas para atravessar a rua. Que nada... Ela ia, dava um passo trêmulo, voltava. Tentou outra vez e não deu, voltou... Ela estava na faixa de pedestres, esperando, pacientemente, a sua vez, pois, todos os carros que passavam a ignoravam solenemente. Daí tentou outra vez e meio atrapalhada retornou ao ponto de partida, sem concluir a sua grande proeza, a de atravessar a rua. O sinal fechou, mas alguns carros retardatários, aqueles que atravessam rapidinho no sinal amarelo, novamente, encheu a rua e nada da velhinha atravessar. Simplesmente não conseguia. Além disso, era uma sábado, justamente o dia que a maioria dos carros que circulam em nosso centro é de fora, cidades da região, onde lá, talvez, não tenha nenhuma velhinha para atravessar a rua. Logo em seguida o sinal abriu e lá veio aquela avalanche de carros outra vez. Eu estava numa das portas das Casas Pernambucanas e num impulso, resolvi ajudá-la naquela turbulenta travessia. Não deu tempo. Um motorista, consciente de seus deveres, gentilmente, parou o carro, deixando a velhinha terrivelmente em dúvida; “Atravesso ou não atravesso a rua?” Decidida resolveu passar lentamente em frente ao carro. Coitada, mal sabia ela que lá vinha uma motocicleta pilotada por um capacete, isso mesmo, um capacete, pois a gente não consegue ver quem está atrás dele. E rumou em direção à velhinha. O santo dos velhinhos a protegeu de uma pancada, que se não fosse o santo segurar na mão dela o motociclista a tinha atravessado pelo meio. (Quem é mesmo o santo protetor dos velhinhos?)


Seguramente, nossa gente está desprotegida dos vilões motoristas. Raros são aqueles que na faixa de pedestres param para que os passantes atravessem com calma, desfrutando do direito certo e líquido de atravessar uma rua, sem medo, quando é sua vez de atravessar.


Se esta velhinha estivesse numa das ruas de Copenhague, na Dinamarca, ela não só atravessaria a rua tranqüila, sem nem olhar dos lados, como se necessitasse seria, imediatamente auxiliada pelo trausente mais próximo que a ajudaria a resolver suas dúvidas de passar ou não passar. Aliás, ela não teria dúvida. A gente até se confunde quando está naquele país. Será verdade mesmo que eu posso cruzar a rua sem que ninguém me atropele? Mas, o povo brasileiro é assim mesmo, demora em assimilar regras, porque foi acostumado desde sempre a dar um jeitinho em tudo e, sobretudo, a levar vantagem sempre. Tudo é mesmo uma questão de educação. Só espero que no dia em que estiver bem velhinha, se ainda eu viva estiver, alguma alma caridosa cianortense pare o carro ao me ver passar.