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A "normalidade" a qualquer preço: assim, nascem os Procrustos...

*Por Ana Floripes - Professora


O mito de Procrusto: normalidade a qualquer preço


"A cidade de Coridalos e arredores tornou-se um inferno. Procrusto era temido e muito amaldiçoado por seus atos. Os gritos dos mutilados eram ouvidos por toda a Grécia, até que uma deusa decidiu intervir. Palas Atena, deusa guerreira e símbolo da sabedoria quis saber o que acontecia. Procrusto justificou seus atos dizendo que agia conforme a justiça e a razão: “As diferenças são injustas, pois permitem que uns se sobressaiam e subjuguem os demais”. Convicto, ele afirmou: "Minhas camas acabam com as diferenças, igualando a todos os homens. Isto é justo. Isto é razoável".

Palas Atena ficou sem palavras! Decepcionada, a deusa voltou ao Olimpo. O silêncio de dela reforçou a crueldade de Procrusto. Para ele, aquele silêncio era um sinal de aprovação. Dessa forma, Procrusto continuava impune eliminando cruelmente as diferenças. Em seu desvario, enquanto mutilava ele expunha suas razões para cada vítima... Felizmente, tanto na mitologia quanto em nossa vida cotidiana, há trabalhos que somente os humanos podem fazer. São circunstâncias e ações humanas nas quais os deuses ficam de fora. Entre os gregos havia os heróis que, de certa forma, poupavam os deuses do “trabalho sujo”. Fazendo valer essa regra, a deusa Palas Atena ficou muda e impotente diante do gigante, mas o jovem herói, Teseu, o encarou de frente. O vigor físico de Teseu era impressionante! Antes de conhecer o gigante, em sua lista de feitos heroicos já constava a eliminação de alguns monstros e malfeitores.

Alienado em sua crueldade, Procrusto achou que a visita de Teseu fosse amistosa... Ele se autopromoveu sem o menor pudor: “Convenhamos, bravo Teseu, minhas ações são todas muito razoáveis e justas. Até mesmo a deusa Palas Atena veio me visitar; quando expus minhas razões, caro Teseu, ela simplesmente não soube o que dizer”.

A resposta de Teseu deu fim aos suplícios de Coridalos: “Louco! As pessoas são diferentes e cada uma tem o direito de ser como é, umas grandes, outras pequenas. Não é justo igualar os homens, impedindo que cada um seja como é”. Enquanto ensinava um pouco de ética e justiça, Teseu prendeu Procrusto lateralmente em sua própria cama e o submeteu ao próprio método. Depois de ter as pernas decepadas, o ex-gigante exclamou “eu só estava sendo justo!”. Teseu quis que o gigante experimentasse o próprio remédio. Preso perpendicularmente, mesmo sem parte das pernas, o corpo ainda estava maior que a cama. Teseu então ajustou Procrusto à própria cama cortando-lhe a cabeça." Ray Pereira



Diante das reflexões que o texto apresenta, questiono: Quem seriam os Procrustos em nosso dia a dia? Qual é a pergunta frequente aos médicos ao final do parto? A resposta é simples: “O bebê é “perfeito?” Naquele momento uns brindam a “perfeição” e outros choram a “imperfeição”, inclusive com as crianças presentes. A meu ver, ali também nasce a ideia da cama de Procrusto e continua vida afora...


Para tudo há explicação, por exemplo, na abordagem de Vygotsky, ela é, antes de tudo, contra o que hoje é chamado de uma visão deficitária da deficiência. Logo, o autor citado insiste que “o desenvolvimento cultural é a principal área para compensação da deficiência". Logo, a este respeito, o caminho do desenvolvimento cultural é ilimitado. Portanto, o desenvolvimento da deficiência cultural é anterior às demais deficiências e deve ser entendido como um processo imerso em práticas socioculturais.


Eu citei o exemplo da deficiência, mas com relação à cama de Procrusto, serve para ilustrar inúmeras situações cotidianas. Entretanto, Vygotsky em seus estudos comprova que a deficiência cultural é respaldada por nossos preconceitos.


Fonte da imagem: https://br.pinterest.com/pin/754704850034621804/