A linha tênue entre protetor e acumulador de animais. A síndrome de Noé, em Cianorte

Atualizado: Fev 14

Aida Franco de Lima – Professora universitária. Dr.ª e Mestre em Comunicação e Semiótica (PUC-SP), Jornalista e Especialista em Educação Patrimonial (UEPG - PR); Guia Especializada em Atrativos Turísticos Naturais (SENAC - EMBRATUR);Técnica em Vestuário (CEEP - PR); escritora (Série: Guardador de Palavras da Gabi).


IMPORTANTE: O local das fotos NÃO existe mais. Os animais foram retirados do ambiente, mas não posso assegurar que não tenham apenas sido 'trocados' por outra pessoa acumuladora. Mas há outros animais em situações similares não apenas em Cianorte como em diversas cidades. O intuito deste texto é alertar para o problema e defender a CASTRAÇÃO em massa com técnicas adequadas, pois na dor somos todos iguais. Acumular animais é uma DOENÇA que também precisa ser tratada, principalmente com apoio do Poder Público.

Gatos acumulados em local escuro e insalubre, em Cianorte (Fotos: Aida Franco de Lima)


A história é sempre a mesma. Coloquei no título o nome de Cianorte, mas poderia ser qualquer cidade. Alguém encontra um gato ou cachorro precisando de ajuda e recorre a determinada pessoa porque ‘ela gosta de animais’. Sem saber dizer ‘não’, a tal pessoa acolhe mais um bichinho. E a frequência maior é com gatos, pois é menos difícil achar lar para um que a outro, por uma série de fatores. Note, eu disse menos difícil. Nada é mais fácil. E aí vem mais outro bichinho entregue por fulano que ficou sabendo daquela pessoa que ‘gosta de cuidar’ e depois vem o beltrano com a mesma história que apenas é repetida.


Incapaz de dizer ‘não’ para acolher mais peludos, mesmo que sem condições, o tal humano que ‘gosta de animais’ facilmente passa a maltratá-los! Porém, vale frisar, sem a consciência de que está provocando sofrimento nos mesmos e sem notar que também sofre. Justo quem foi procurado para livrá-los da dor, se torna seu algoz. E mais, quem acumula animais doentes também é um ser doente! “O transtorno de acumulação de animais caracteriza-se pelo acúmulo de animais e falha em proporcionar padrões mínimos de nutrição, saneamento e cuidados veterinários e em agir sobre a condição deteriorante dos animais (incluindo doenças, fome ou morte) e do ambiente”, explica Luis Henrique Paloski, em sua dissertação de mestrado chamada, Transtorno de acumulação de animais: caracterização do funcionamento cognitivo.


"A síndrome de Noé faz referência à acumulação patológica de animais no domicílio. É, por isso, uma doença de obsessão por animais. A síndrome de Noé é um transtorno de acumulação no qual existe uma acumulação patológica e obsessiva, pelo que se colecionam itens em excesso, neste caso animais, e no qual a pessoa se sente incapaz de desfazer-se dos mesmos." (Psicologia Online)

Já estive de vários lados dessa história. Há muitos anos, antes de ir fazer universidade meu vizinho envenenou meus gatos, que foram na casa dele comer passarinhos engaiolados. Os gatos não morreram, porque vomitaram o veneno. Mas a minha cachorrinha, a Pelúcia, que todos meus amigos conheciam e por onde ela andava encantava a todos, morreu! Ela lambeu o vômito dos gatos. Nunca perdoei esse vizinho e acho que a Lei do Retorno está cuidando muito bem dele... Com medo de ele matar mais gatos, passei a deixá-los presos em um espaço muito pequeno, soltando uma vez por dia. Pareciam crianças saindo para o recreio! Não durou muito essa situação, mas foi um passo para o acúmulo.


Já na época de universitária fui a uma área natural, na cidade de Ponta Grossa, onde costumavam abandonar animais. Achamos duas ninhadas de cachorros, com suas respectivas mães. Catamos tudo e levamos pra cidade, entregando a uma idosa que gostava de animais. Anos mais tarde, fui participar de uma ONG de proteção animal e então descobri que a tal idosa, era acumuladora! Pensamos que fazíamos o bem, e era bem o contrário.


O CASO DE CIANORTE - PR

E em 2015 presenciei como jornalista um caso de acumuladora em Cianorte. Eu já nem sabia direito qual era o meu papel, pois também coloquei a mão na massa, aluguei caçamba pra retirar os entulhos, transportei os animais, fiz as fotografias, ajudei a limpar o ambiente, senti enjoo com o odor, chorei com a crueldade do local... E a dúvida era: o que fazer naquela situação? Denunciar? E qual seria o destino dos animais? E qual seria a responsabilidade do Estado, no caso prefeitura, que no papel é responsável por resguardar os direitos desses seres indefesos? E a pessoa que os acumulava? E as pessoas que empurraram os animais para seus cuidados? Nem todas as perguntas cabem aqui e muito menos as respostas.


O fato é que havia ali naquele local um estado de sofrimento múltiplo: animais, pessoa acumuladora e vizinhos em estado de sofrimento! Moradores me relataram que não podiam abrir as janelas laterais, de tanto que fedia! Onde estava a Vigilância Sanitária que foi omissa nesse caso? Sim, foi omissa. Se não tivesse sido, não teríamos as fotos que seguem. Onde estavam os órgãos que deveriam cuidar das pessoas com transtornos mentais? Sim, já explicamos lá no começo do texto que essa é uma pessoa doente, que precisa de cuidados. De quem é a culpa? Nessa história apenas os animais são inocentes. Cada humano tem sua parcelinha nessa história. Principalmente quem abandonou ninhadas de animais há muitos anos, afinal, não é difícil que houvesse sangue da geração passada desses bichinhos nesse lugar, literalmente.


O local das fotos foi desativado há alguns anos, os animais que sobreviveram foram medicados e levados para um ou outro voluntário, visto a dificuldade de acolher felinos adultos e arredios. Mas, a maior parte para uma outra única pessoa, por isso o receio de eles apenas terem sido transferidos de acumulador. O trabalho foi realizado por pessoas vinculadas ou não a uma ONG (se autorizarem colocarei o nome). Não houve ajuda ou envolvimento de outros órgãos. Não sei precisar a quantidade de gatos que havia originalmente no local, talvez 20, 50, realmente não sei dizer. Mas as imagens falam por si.

Os animais estavam visivelmente doentes, com problemas aparentes como escamação da pele, problemas respiratórios, magros e extremamente ariscos (Foto: Aida Franco de Lima)


Visão externa de um dos locais onde os gatos eram aprisionados, em Cianorte. Mas o acumulador não compreende que isso é maus tratos (Fotos: Aida Franco de Lima)


Continuidade da visão externa do mesmo local, completamente inapropriado (Foto: Aida Franco de Lima)


O ambiente impróprio, úmido, sujo, privado de sol, o stress do aprisionamento, entre outros fatores, causam doenças diversas. O animal da foto está praticamente sem pelo, e muito arredio (Foto: Aida Franco de Lima)

Parte interna, de um dos locais em que os gatos eram 'abrigados'. Note que os animais estão acuados, justamente pelo aprisionamento completo, privados da interação com outros animais e pessoas (Fotos: Aida Franco de Lima)

Nas imagens acima e abaixo, lixo por todos os locais do terreno, uma das características da desordem da saúde mental do acumulador. Muito lixo já havia sido retirado, mas ainda assim foi necessária uma caçamba inteira para recolher (Fotos: Aida Franco de Lima)

Algumas características indicativas do comportamento de um acumulador de animais podem ser observadas, como a reunião de um grande número de animais, normalmente recolhidos das ruas; o apego demasiado aos animais tutelados; e o não atendimento às necessidades básicas de bem-estar animal, não havendo garantia à integridade física, ao atendimento médico-veterinário e ao acesso adequado à alimentação e à higiene. Entretanto, por se tratar de uma desordem da saúde mental, o acumulador não tem a capacidade de entender e reconhecer a crueldade e o sofrimento imputado aos animais confinados, chegando a situações extremas de negar eventuais óbitos dos que se encontram sob tutela. (Claudio Manuel Rodrigues)

Esse é o compartimento interno da casa, lavanderia, onde os animais eram aprisionados. As marcas de arranhados abaixo da janela denunciam o desespero em tentar fugir do local (Foto: Aida Franco de Lima)


Vista externa da janela, muito reforçada com telas, para evitar a fuga dos animais (Foto: Aida Franco de Lima)


Na lavanderia, onde os gatos ficavam presos, muita sujeira por toda parte. O ambiente ficou impregnado com o odor (Foto: Aida Franco de Lima)


O teto e as paredes completamente tomados de sujeira, prejudicial aos animais, ao acumulador e para os voluntários que foram limpar o local e aspiraram a sujeira (Foto: Aida Franco de Lima)

O local usado para acumular animais fica completamente danificado. Estressados eles tentam de todas as maneiras uma fuga e a higiene é deficitária (Foto: Aida Franco de Lima)




Animais que restavam no local, pois havia muito mais que os mostrados nas fotos, sendo recolhidos (Foto: Aida Franco de Lima)



As grades aprisionam os gatos, conhecidos por seu espírito de liberdade, o que impacta ainda mais no sofrimento (Foto: Aida Franco de Lima)

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