A antiga Biblioteca do Bosque e o novo elefante branco

Atualizado: Jan 11


A #biblioteca está na #lembrança de uma #geração que frequentou o local (Foto: Gilda Bexiga)


Aida Franco de Lima – Professora universitária há 20 anos. Dr.ª e Mestre em Comunicação e Semiótica (PUC-SP), Jornalista e Especialista em Educação Patrimonial (UEPG - PR); Guia Especializada em Atrativos Turísticos Naturais (SENAC - EMBRATUR);Técnica em Vestuário (CEEP - PR); escritora (Série: Guardador de Palavras da Gabi).


O Bosque da Matriz faz parte da memória afetiva dos cianortenses que frequentaram o local para estudar na antiga Biblioteca, para apreciar os saguis que ali apareciam e até mesmo um viveiro com aves. Muita gente acima dos 30 anos deve se lembrar da Dona Dolores, que botava ordem na casa e do Magno, que era o Google de lá. Não me lembro de seus sobrenomes, mas assim que possível acrescento. Era só perguntar de um assunto que o Magno dizia exatamente em qual livro e em qual prateleira estava. Aliás, acredito que esses dois mereceriam mais que ninguém, que tivessem seus nomes emprestados para batizar aquele local.


Os trabalhos escolares podiam ser chatos, mas era até divertido ir até o Bosque, escolher uma mesinha, esperar a chegada dos colegas da equipe, mesmo que não tivesse banquinho para todos. Uns faziam os trabalhos lá dentro, outros ficavam nas mesinhas espalhadas. Depois que a tarefa era finalizada, ainda sobrava muito tempo para jogar conversa fora. E também tinha quem ia lá só para jogar conversa fora, paquerar, fumar escondido o cigarro ou a erva danada.


Havia uma parte com calçamento e nas proximidades diversas mesinhas e bancos de concreto (Foto: Gilda Bexiga)


Com o tempo o tal viveiro de aves foi alvo de vandalismo, a Biblioteca começou a ter muitas infiltrações e não sei exatamente em que ano ela foi retirada do local por ser considerada como insegura, porque algum galho em dias de chuva poderia cair sobre o telhado e também por causa de alguns frequentadores que ali não eram bem-vindos. Perdi as contas para quantos locais a biblioteca foi transferida. Chegou até a funcionar em uma galeria da cidade, ao lado de uma academia de dança. Tudo a ver.


Em 2019 a Prefeitura de Cianorte comunicou em seu site oficial que ‘atendendo a pedidos da população’ o bosque seria revitalizado, com investimentos do Governo do Estado e do Município, somando um valor de 800 mil reais. Me pergunto se realmente a população teria mesmo interesse que fosse investido esse valor em um espaço que necessitava apenas de algumas adequações, que não foram contempladas. Como por exemplo, o conserto das pequenas faixas de calçadas que atravessam o local e que são usadas para quem corta caminho por ali.


Parte do material usado para divulgar a revitalização do local (Ascom)


O Bosque sofreu um processo de limpeza, os troncos de árvores caídas foram todos retirados e isso é bastante questionável, além de boa parte da área ter o solo ‘varrido’. Afinal, se fosse apenas pela questão de segurança, bastava retirar os galhos superiores. Qualquer pessoa que tenha o mínimo de conhecimento sabe que para a natureza folhas e um tronco no chão não são sinônimos de lixo, e que esse material desenvolverá importante papel naquele bioma.


Com a reforma do local, o #'CãoDomínio' foi tirado do local e não há informação de seu destino (Foto: Divulgação)


E pelo visto aquela mesma população que, supostamente, pediu as obras não está satisfeita com os resultados. O chafariz está com água esverdeada porque o processo natural de putrefação já ocorre no local. Para dar lugar a uma ciclovia que contorna a área, os estacionamentos foram suprimidos justamente em uma região em que há inúmeras clínicas, inclusive de fisioterapia. Ou seja, estacionamentos essenciais para os frequentadores que encontram dificuldade para deslocamento. E para ajudar, ainda deram fim no CãoDomínio que havia no local. Um projeto que desenvolvemos de maneira voluntária, para incentivar a prática da Lei Estadual e Municipal que permite adoção do Cão Comunitário.


Imagens acima e abaixo do #Bosque após a revitalização (Foto: Divulgação)

Uma administração pública que valorizasse a memória afetiva coletiva teria obtido mais êxito se no lugar do chafariz, que necessitou que fosse aberta uma clareira na mata, uma réplica da antiga biblioteca fosse reerguida. Mesmo que o prédio fosse usado para outra finalidade. Teríamos as boas memórias do passado, com a segurança que a engenharia e o dinheiro nos permite.

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