A crueldade por trás da queima de fogos, aos animais e humanos

Atualizado: Jan 11


Imagem ilustrativa que alerta para a crueldade dos fogos com estampido, que circula nas redes sociais


Aida Franco de Lima – Professora universitária há 20 anos. Dr.ª e Mestre em Comunicação e Semiótica (PUC-SP), Jornalista e Especialista em Educação Patrimonial (UEPG - PR); Guia Especializada em Atrativos Turísticos Naturais (SENAC - EMBRATUR);Técnica em Vestuário (CEEP - PR); escritora (Série: Guardador de Palavras da Gabi).


Natal, Ano Novo, São João, jogos, festas em geral, comemorações, inaugurações, protestos. Não sei exatamente como funciona em outros países, mas em Cianorte e no resto do Brasil, essa tradição, diga-se de passagem bastante estúpida, ainda é frequente, não importa o dia ou horário. E na Capital do Vestuário, ela acontece religiosamente, tendo como justificativa questões sanitárias. Em 2019 foi legalizada a prática (que antes ocorria na surdina) de soltar fogos para espantar aves silvestres (erroneamente ditos como pombos domesticados) que usam as árvores da praça do entorno da Matriz como abrigo. Mesmo que essa esteja localizada a uma quadra de um hospital e maternidade. Disparar fogos foi a solução encontrada para evitar que aves defequem nas esculturas e carros que ficam na região. São Francisco de Assis que lute!

De um lado estão aqueles que acreditam que têm o direito de extravasar suas emoções, revelando ao mundo, se possível fosse, sua emoção. Soltar fogos normalmente é relacionado a sentimento de felicidade, prenúncio e até mesmo para ‘evitar doenças’, no caso de Cianorte. Diferente do que é propagado, não se trata de uma superpopulação de pombos domesticados, mas um bando de pombas silvestres, pardais, andorinhas, entre outros, todos protegidos por Lei. Há um ano um abaixo-assinado (https://www.change.org/p/chega-de-crueldade-pelo-fim-dos-fogos-direcionados-aos-p%C3%A1ssaros-em-cianorte) denuncia o que ocorre em Cianorte e já juntou mais de 400 mil assinaturas contra os fogos direcionados aos pássaros. E nessa época de festas, a situação agrava-se. E mesmo quando não direcionados especificamente aos animais, como mostra o vídeo que segue, do outro lado do estampido, há uma parcela de animais humanos e não humanos que sofre e chega a morrer, literalmente, de medo e pavor.


Vídeo mostra momento em que são disparados fogos para afugentar aves silvestres que abrigam-se nas árvores da praça do Santuário Eucarístico, em Cianorte. A ação é autorizada pelos órgãos competentes


A começar pelos animais, mais sabidamente cães e aves, é um desespero total. A audição muito sensível é atingida de tal forma que muitos se jogam em vidraças, grades ou telas de proteção, pulam de janelas ou muros, fogem desesperados pelas ruas ou morrem de parada cardíaca. Tive uma cachorrinha cega que, apavorada pelos fogos, pulou o muro de casa e nunca mais a encontramos. Você já notou que as aves fazem revoada forçada quando ocorre o estampido dos fogos? “Danem-se os animais, não gosto deles mesmo!”, argumentaria o fanático por ruído.



O rasgo na tela foi provocado por um cachorro de porte pequeno que, amedrontado, pulou até a parte superior do canil para fugir


Vamos lá, pense então nos humanos ou alguém da família. O barulho coloca em aflição pessoas de espectro autista, depressivos, com síndrome do pânico, pacientes acamados, idosos, pessoas com Alzheimer, e situações similares de desconforto físico e mental. Há dez anos, quando minha mãe estava mergulhada em uma depressão profunda, em plena virada de ano, o meu maior medo era de ela sofrer uma parada cardíaca por conta dos fogos. Tomada da síndrome do pânico, na sua imaginação atormentada, os fogos significavam o fim do mundo! E como iria explicar que o mundo não estava acabando, se na virada do ano o céu iria explodir, literalmente? A solução encontrada foi levá-la para a zona rural, na casa de uns amigos. Então, faltando uns minutos para a meia noite, a colocamos em um carro barulhento, conversamos bem alto e andamos na rodovia. Ela via o brilho no céu, mas não escutava os estrondos. Parece brincadeira, mas somente quem convive com alguém nessa situação sabe o inferno que esse tipo de comemoração significa.

Bebês e crianças também estão nesse rol de vítimas dos estrondos. Há ainda os incontáveis casos de pessoas que lidam diretamente com os artefatos e entraram para as estatísticas de vítimas fatais. Sejam os trabalhadores, usuários, espectadores ou vítimas inocentes.


Em diversas localidades a população pressiona para botar fim aos fogos com estampido (Foto: Divulgação)


Protesto na cidade de Palmeira - Pr (Foto: Rede Clima)


Uma alternativa, para que continuem comemorando sem provocar tantos danos a terceiros é o uso de fogos sem estampido, apenas com efeitos pirotécnicos. Afinal, convenhamos, se a pessoa quer escutar barulho, ela que coloque um fone de ouvido. Porque o seu direito acaba onde começa o dos outros, não é mesmo?


Como nem todas as pessoas pensam no coletivo cabe aos municípios regularem essa situação e felizmente isso já ocorre em diversas localidades como na cidade de Palmeira, no Paraná, que em 2019 aprovou em discussão única Projeto de Lei Complementar que proíbe a queima, soltura e manuseio de fogos de artificio e artefatos pirotécnicos que geram estampido. Cianorte – PR, deveria ser um exemplo. Com as matas do Cinturão Verde ladeando uma parte da Cidade, a queima de fogos com ruído é mais uma agressão aos animais silvestres. Muitos abandonam seus ninhos ou tão somente morrem por causa do impacto.


Precisamos evoluir em relação a essa situação. Necessitamos de um amplo trabalho para conscientizar as pessoas sobre esse assunto e de leis firmes para coibir tal prática, a começar pela proibição de que os órgãos públicos gastem dinheiro com fogos e, se houver exceção, que seja unicamente sem barulho. Em Cianorte, o Projeto de Lei 072/2017, que tem essa finalidade está em modo de espera. E você, de qual lado está? Converse com a sua família, seus amigos. Tente mostrar que breves momentos de alegria para uns é um sofrimento sem fim para muitos outros.


Imagem educativa compartilhada em redes sociais



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